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Full text of "Diva [microform] : perfil de mulher"

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for discíplinary action and moy 

the Universlty. aaoo 







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/ 




JOSÉ DE ALENCAR 

DIVA 
(PERFIL DE MULHER) 



Reservados todos os direitos de reproducção nos 
paizes que adheriram á Convenção de Berne; 
Brasil: Lei n.° 2577 de 17 de Janeiro de 1912; 
Portugal: Decreto de 18 de Março de 1911. 



ANTHOLOGIA UNIVERSAL 



José de Alencar 



DÍVA 



i 

(PERFIL DE MULHER) \ 

i. 
■ i. 




2 



EDITORES 
ANNUARIO DO BRASIL— RIO DE JANEIRO 

RENASCENÇA PORTUGUESA - PORTO 



ANTHOLOGIA UNIVERSAL 



VOLUMES PUBLICADOS: 

1 — Manuel Bernardes — Historias varias (da NoVA FLO- 
RESTA). 

2 — Soror Marianna — Cartas de Amor (nova restituição 
por Jaime Cortesão). 

3 — José de Alencar — Iracema (edição prefaciada por Mário 
de Alencar, da Academia Brasileira). 

4 — Almeida Garrett — Frei Luiz de Souza. 

5 — Gonzaga — Marilia de Dirceu (edição prefaciada e anno- 
tada por Alberto Faria, da Academia Brasileira). 

6 — Fernão Mendes Pinto — Em busca do Corsário (da PE- 

REGRINAÇÃO). 

7 — Carlos Dickens — Canto do Natal (tradução de D. Vir- 

gínia de Castro e Almeida). 

8 — Camões — Pensamentos extraídos das suas obras por 

J. Vianna da Motta. 

9 — Cervantes— Novellas exemplares (Cornélia — O Ciu- 

mento), tradução de D. Virgínia de Castro e Al- 
meida. 

10 — Fernão Mendes Pinto — A Ilha dos Tesouros '(da PE- 

REGRINAÇÃO). 

11 — José de Alencar — Diva. 






NOTA PRELIMINAR 






í 



Diva é um dos romances de J. de Alencar, 
de que eu mais gosto. Ainda agora, folheando-o 
para o preparo desta edição, reli-o, sem necessi- 
dade, da primeira á ultima pagina, com o mesmo 
pi'aser e interesse da primeira leitura feita em me- 
nino; e das subsequentes, repetidas tantaa vezes, 
que nem liies sei o numero. Encanta-me este livro, 
pelC' estylo e pela força de emoção de dua,s ou três 
scenas, das ultimas, que se destacam na singe- 
leza da narrativa. í 

Entrecho simples, e poucos os personagens, in- 
cluídos os secundários e episódicos, mas todos 
vivamente traçados. :\o caracter de Emilia, que 
é o principal, objectaram críticos do tempo, e 
mais tarde o próprio Araripe Júnior, o insigne 
apreciador de J. de Alencar, a incongruência das 
feições moraes e dos actos, ao parecer compostos a 
capriche mais para impressionarem pela extra- 
nheza do que produzirem um typo verosimil. A 
realidade artística teria sido assim sacrificada pelo 
artificio do romanesco. 

(51 



Diva 



Extranha com ef feito é a figura de Emilia, in- 
coherente, voluntariosa, de uma psychologia diffi- 
cil de se retratar ao primeiro encontro; não é 
um typo vulgar de moça, como as que appare- 
cem á nossa observação intromittente e superfi- 
cial, e fallaz até no mesmo convivio domestico. 
Quantas delias, porém, e particularmente as que 
merecem observação, se deixam observar e estudar 
nas manifestações exquisitas e definitivas do ca- 
racter? Pois iUão é geral o conceito, hoje como 
em todos os tempos, de que a mulher é uma 
esphynge, impenetrável no seu segredo de alma? 
Que é por exemplo a admirável Esvhynge de 
Afranio Peixoto, e a sua não^ menos formosa e 
acre Frueta do Mato? Uiva entretanto é mais in- 
nocente e menos cnigm.atica do que Lúcia, Clari- 
nha e Joanninha. O que ella tem de excêntrico são 
antes algum 'dos seus actos de desdém, orgulho o 
desenvoltura, inpulsivos ou reflectidos, do que o 
seu próprio caracter. E não consideraram bem 
aquelles críticos que a apresentação parcial e su- 
cessiva da sua figura feminina era feita pelas 
impressões pessoaes do amante, em carta confi- 
dencial, escrita ao influxo dos sentimentos que 
elle ia soffrendo. O retrato moral da mulher ama- 
da tinha por força de reflectir traços exaggerados, 
incompletos, inconstantes, subjectivos de quem 
confessava não entendel-a. A quem lê a carta é 
que se vae aos poucos explicando a pessoa moral, 
esfumada, ás vezes aclarada, mas incerta aos olhos 
de quem a via quasi á luz de relâmpagos. 

E disso ingenuamente alcançou grande effeito 



[61 



Nota preliminar 

a arte espontânea do romancista. Interessa viva- 
mente esta ficção, apesar de singela, e sem.' o en- 
xerto costumado em tantos romances, cujo as- 
sumptO' principal tem a realidade de um fio frágil, 
que é mister ir reforçando. 

Aqui é o mero desenvolvimento de uma af- 
feição pura de moça rica, desconfiada dos sen- 
timentos que inspira, e incerta de que a mereça 
o homem a quem ama. Teme declarar-se de todo, 
teme por ei mesma e emquanto o vê solicito, sub- 
misso aos seus caprichos, abusa do seu dominio, 
vae até o excesso contraditório, peculiar ao animo 
que duvida; mas ante a reacção violenta do humi- 
lhado, ella, ferida, vencida, humilha-se por sua 
vez com toda a effusão feminina. E Diva que 
era, é mulher^ é franquesa, é brandura, é escra- 
vidão* de amor. 

Alem do interesse do en trecho, vale este ro- 
mance pelo estylo. Não me refiro estrictamente 
ao teoi tia expressão vocabular e syntactica, se- 
não á expressão global da intelligencia intima 
do género de arte do talento d^ realização; e 
é o que forma a graça da obra gerada sem es- 
forço, e feita sem estudo, á semelhança de uma 
narrativa de memoria. Este livro tem mais vida 
do que pensamento. Para apreciar o que isso 
importa numa obra do arte — cujo destino, é pro- 
duzir a idealização involuntária do leitor, a sua 
traslaçião temporária ao anundo da fantasia, com 
a impressão entretanto de que não sahe da reali- 
dade ; o que não compete ás obras de pensamento — 
compare-se este romancej, e os que são «omo elle, 

17 j 



Diva 



romances puros, aos outros, hoje tão frequentes, 
obras hybridas de doutrina e novella, fatig^antes, 
apesar de todo o lavor da linguagem, da imagina- 
çião e exoellencia das idéas, na verdade deslocados, 
e talvez pela sua mescla imprópria tendentes a 
final descredito e esquecimento. Trasem esses pelo 
menos uma parte perecivel, que é a parte extrantia 
á fantasia do género, ao passo que os romances 
puros, por muito que mudem as escolas e o gos- 
to, hião de ter leitores a que illudam, como ,a 
mim ainda me illude c encanta esta Diva. 

Quando primeiro appareccu, e até a morte 
do romancista, não trazia Diva nome do autor, 
senão a sigla G. M., a mesma que firmava outro 
estudo de mulher — Luciola, a que se refere o 
escritor na carta de introducção. Em 187õ já tinha 
Diva três edições; hoje será difficilimo a um pa- 
ciente bibliographo apurar-lhes o numero, levando 
em conta as que tem feito a Livraria Garnier,. 
seu primeiro editor, e as outras muitas que se 
têm publicado por ahi, desde 1888, em que passou 
para o dominio publico o direito autoral das obras 
'de J. de Alencar. O publico, alheio á critica, 
reclama-lhe e esgota-lhe as edições. 

Março de 1921. 



Mário de Alencar. 



Í8] 




A G. M. 



NVIO-LHE outro perfil de mulher, tirado } 

ao vivo, como o primeiro. D'este, a se- ;; 

nhora pode sem escrúpulo permittir a [. 

leitura á sua neta. l\ 

É natural que deseje conhecer a origem d'esle ■ 

livro; previno pois sua pergunta. 

Foi em Março de 1856. Havia dois mezes 
que eu tinha perdido a minha Lúcia; eila en- 
chera tanto a vida para mim, que partindo-se 
deixou-rae isolado n'este mundo indifferente. Senti 
a necessidade de dar ao calor da familia urna "^ 

nova tempera á minha alma usada pela dôr. »= 

Parti para o Recife. A bordo encontrei o 
Dr. Amaral, que vira algum. as vezes nas m.e- S 

Ih ores salas da corte. Formado em medicina, ha- t. 

via um anno apenas, com uma vocação decidida ^ 

e um talento superior para essa nobre sciencia, 
elle ia a Paris fazer na capital da Europa, que 3 

é tamlem o primeiro hospital do mundo, o estádio 
quasi obrigatório dos Jovens médicos brasileiros. 

Amaral, moço de vinte e três annos, era uma 
natureza crioula de sangue europeu, plácida e 



3 



(91 



José de Alencâr 

serena, mas não fria; poix[ue sentia-se em torno 
d.'ella< o docei e almo calor das paixões em repouso. 
Minha alma mag-uada devia pois achar, n'esse 
contacta Tirando e suave, a delicia do corpo al- 
quebrado recostando -se em leito macio e fresco. 

Quanto a mim, Lúcia desenvolvera com tanto 
vigor em meu coração a-s potencias do amor, que 
cercava-me uma como atmosphera amante, ova- 
poraçião do sentimento que exuberava. Havia em 
xneu coração tal riqueza de affecto que chegava 
para distribuir a tudo quanto eu via, e sobejava- 
me ainda. 

Essa virtude amante, que eu tinha om toda 
a minha pessoa, exerceu sobre meu companíieiro 
de viagem influencia igual á que produzira em 
mim sua grande serenidade. EUe fora um repouso 
para minha alma; eu fui um estimulo para a sua. 

Succedeu o que era natural. Desde a primeira 
ncite passada a bordo, fomos amigos. Essa ami- 
zade nascera na véspera, mas já era velha no dia 
seguinte. As confidencias a impregnarão logo de 
um' aroma de nossa mutua infância. 

Separámo-nos em Pernambuco, apezar das in- 
stancias de Amaral para que eu o acompanhasse 
á Europa. Durante dois annos nos carteámos 
com uma pontualidade e abundância de coração 
dignas de namorados. Em sua volta esteve comigo 
no Recife; escrevi-lhe ainda para o Rio; mas 
pouco tempo depois minhas cartas ficarão sem 
resposta, e nossa correspondência foi interrom- 
pida. 

DecorrêrÃo mezes. 

110] 



Diva 



Um bello dia recebi pelo seg-uro uma carta de 
Amaral; envolvia um volumoso manuscrito, e di- 
zia,: 

«Adivinho que estás muito queixoso de mim, 
e não tens razão. 

«Ha tempos me escreveste, pedindo -me noti- 
cias de minha vida intima: desde então comecei 
a resposta, que só agora conclui: é a minhf> 
historia n'uma carta. 

«Foste meu confidente, Paulo, sem o saberes; 
a só lembrança da tua amizade bastou muitas i 

vezes para consolar -me, quand,o eu derramava 
n'este papel, como se fora o envolucro de teu £ 

coração, todo o pranto de minha alma.» 



O manuscrito é o que lhe envio ag-ora, um 
retrato ao natural, a que a senhora dará, como 
ao ;Outro, a g-raciosa moldura. 



P. 



1 
[111 






i 



DIVA 




MILIA tinha quatorze aiinos quando a vi i 



pela primeira vez. «: 

Era uma menina muito feia, mas da feal- ?■ 

dade núbil que promette á donzella esplendores ^ 

de belleza. ; | 

Ha meninas que se fazem mulheres como as 
rosas: passão de botão a flor; desabrochão. Ou- 
tras sahem das faixas como os colibris da g^mma: 
em quanto não emplumão são monstrinhos; de >^ 

pois tornão-se maravilhas ou primores. U 

Era Emilia um colibri implume; por conse- "^ 

guinte um monstrinho. 3 

Seu crescimento fora muito rápido ; tinha já ^ 

altura de mulher em talhe de criança. D'ahi uma K 

excessiva magreza: quanta seiva accumulava ;-; 

aquelle organismo era consumida no desenvolvi- ú 

mento precoce da estatura. 

Ninguém caracterisava com mais propriedade 
esse defeito de Emilia do que a menina Júlia, 
sua prima. Quando as dua^ se agastavão, o que 

[13 1 



José de Alencar ' 

era frequente, Júlia a chanjava de esguicho âe 
genie. 

Não parava ahi a fealdade da pobre Emilia. 
A lOSsea estructura do talhe tinha nas espáduas, 
no peito e nos cotovellos, agudas saliências, que 
davão ao corpo uma aspereza hirta. Era uma 
boneca, desconjuntada a 'miúdo pelo gesto ao mes- 
mo tempo brusco e timido. 

Como ella trazia a cabeça constantemente 
baixa, a parte inferior do rosto ficava na som- 
bra. A barba fugia-lhe pelo pescoço fino e longo; 
faces, não as tinha; a testa era comprimida sob 
as pactas batidas do cabello, que repuxavão duas 
tranç<'tó compridas e espessas. 

Kestava apenas uma nesga de physionomia 
para os olhos, o nariz e a boca. Esta rasgava 
a maxilla de uma iorelha á çutra. O nariz ro- 
mano seria bonito em outro semblante mais re- 
gular. Os olhos negros e desmedidamente gran- 
des afundavão na penumbra do sobrolho sempre 
carregado, com buracos pelas orbitas. 

A respeito do trajo, que é segunda epiderma 
d.a mulher e pétalas d 'essa flor animada, o da 
menina correspondia a seu physico. 

Compunha-se elle de um vestido liso e escor- 
rido, que fechava o corpo como uma bainha des- 
de a garganta até os punhos e tornozellos; de 
um' lenço enrolado no pescoço; e de umas calças 
largas, que arras ta vão, escondendo quasi toda a 
botina. 

Emilia ainda assim não parecia satisfeita. Es- 
tava constantemente a encolher -se, fazendo tre- 

114] 



Diva 



geitos para mergulhar o resto do pescoço e o 
queixo no talho do vestido, e sumir as miãos no 
punho áas mangas. Caminhando, dobrava as cur- 
vas afim de tornar comprida a saia curta; sentada, 
mettia os pés por baixo da cadeira. 

Tinha um cuidado extremo em puxar para 
a frente as longas tranças do cabello, que an- 
davão sempre a dansar-lho como antolhos pelo 
rosto. Se lhe falava alguma pessoa de intimidade 
da família, não lhe voltava as costas como fazia 
com os estranhos; mas sentia logo uma necessi- 
dade invencível de coçar a cabeça, acompanhada 
por um repuxamento dos hombros. Erão modos 
de atravessar o braço diante do rosto e furtar 
o queixo escondendo assim o que lhe restava de 
physionomia. 

Muitas vezes o Sr. Duarte zombava com terna 
ironia d'esses biocos da filha: 

— Deixa estar, Milal... dizia elle abraçan- 
do-a. Vou mandar fazer para ti um sacco de lã 
com dois buracos no lugar dos olhos. 

Tal era Emilia aos quatorze annos. 

Entretanto, quem soubera a anatomia viva 
da telleza, conhecera que havia n'essa menina 3 

feia e desengraçada o arcabouço de uma soberba <, 

mulher. O esqueleto ali estava; só carecia da in- K 

carnaçtão. 

Ainda me lembro da cólera infantil de Emilia, ^ 

quando, a primeira vez que estive com cila, eu 
a perseguia de longe chamando-a: 

— Minha noivai 

— Feio ! . . . dizia-me então. 



Í15 1 



José de Alencar 

E pronunciava essa palavra como se ella sym- 
bolisasse a maior injuria possível. 



II ' 

COMEÇARA o verão de 1855. 
Uma manhã appareceu Geraldo em minha 
casa. Entrou, conforme o seu costume, es^ 
trepitoisamente, e cantarolando não sei que ária 
do seu repertório italiano. 

— Vai ver minha irmã ! disse passando por 
mim e sumindo-se pelo interior da casa. 

Violtou logo com o charuto acceso. 

— Tua irmã? perguntei sem comprehendel-o. 

— Sim, Mila, que amanheceu com uma febre 
damnada. 

— Ah! É como medico que me pedes para 
ir ver tua irmã? 

— Pois então!... \'amos; veste-te; o carro 
está na porta á espera. 

— Mas, Geraldo . . . Foi tua família que man- 
dou chamar -me? 

— Foi meu pai. 

— A mim, designadamente? 

— E esta!... Mandou -me chamar um medi- 
co; tu és um . . . logo! 

— Quem sahel Talvez não lhe inspire con- 
fiança. 

— Ora, deus!... Elle não entende d'issoI 
Ao enti-ar no carro, Geraldo despediu-se. 

[16] 



Dí 



iva 



— Não vens ? 

— Para que? Não faço falta lâ. Até logo! 
Geraldo pertoncia á classe dos homens a quem 

lateja a moleira toda a vida, e, velhos já, são 
ainda meninos de cabellos brancos. Não te admire 
portanto a leviandade d'esse moço. 

Chegniei á chácara do Sr. Duarte â uma nora 
da tarde. 

A familia estava na maior afflicção. A menina 
ardia em febre desde a véspera, queixando-se de 
fortes pontadas sobre o coração. Todos os sym- 
ptomaá parecião indicar uma affecção pulmonar. 

No aposento reinava uma frouxa claridade 
que mal deixava disting^uir os objectos. Emilia 
prostrada no leito, sob as coberturas de lã, pa- 
recia inteiramente sopitada no lethargo da febre. 
Sua tia D. Leocadia, que fazia agora as vezes 
de mãi, estava sentada á cabeceira. 

— Minha senhora, disse eu, é necessário aus- 
cultar-lhe o peito. 

— Então, Sr. doutor, aproveite emquanto ella 
dorme. Se acorda, nada a fará consentir. 

A senhora afastou a ponta da cobertura, dei- 
xando o selo da menina envolto com as roupa- 
gens de linho. 

Mal encostei o ouvido ao seu corpo, teve ella 
um forte eobresalto, e eu não pude enguor a 
cabeça tão depressa, que não sentisse no meu 
rosto a doce pressão de seu collo offeg-ante, 

O que se passou depois foi rápido como o pen- 
samento. 

Ouvi um grito. Senti nos homJaros choque tão 



117] 



José de Alencar 

trusco € violento, que me repelliu da borda do 
leito. Sobre este, sentada, de busto erguido, hirta 
e horrivelmente pallida, surgira Emilia. Os olhos 
esbraseados scintillavião na sombra: conchegando 
ao seio com uma das mãos crispada as longas 
colerturas, com a outra estendida sob as amplas 
dotras d'essa espécie de túnica, ella apontava [)ara 
a porta,. 

-- Atrevídol . . . clamou o lábio erriçado de 
Golera e indignaçião. 

Fiquei attonito. D. Leocadia pediu-me que sa- 
hisse um moTO^ento. Ao retirar -me, o olhar da me- 
nina, irepassado de um ódio profundo, acompa- 
nhou-me até que desappareci na porta. 

D'ahi a pouco o Sr. Duarte veiu á sala. 

— Peço-lhe mil desculpas, Sr. doutor, pelo que 
acaba de acontecer. Mila teve uma educação mui- 
to severa . . . Minha fallecida mulher era n'esse 
ponto de um rigor excessivo; muitas vezes fiz- 
Ihe ver o inconveniente disso . . . Mas, Sr., doutor, 
■V. S. bem sabe quanto as mais são zelosas de 
sua autoridade. 

— Não se afflija, Sr. Duarte. Eu comprehendi 
J-Og^o a razão do que se passou. Sua filha não 
estava prevenida . . . acordou sobresaltada . . . 

— É verdade! 

— Demais, eu sou para ella quasi um estra- 
pho. Havia, portanto, motivos de sobra para o 
seu vexame. O recatioi é tão bella virtude em uma 
menina! 

— Mas em minha filha é em tal excesso, que 
já parece vicio. 

I 18 ] 



Divã 

— Mudará com a idade. Agora convém qiie 
V. S. a convença da necessidade de consen- 
tir ... 

— Tanto que lhe pedi já e roguei! Não quer 
ouvir falar de semelhante cousa. 

— É dos casos em que um pai deve interpor 
a sua autoridade. 

— Oh I sinj.o que não teria animo ! Nunca até 
hoje ralhei com minha filha. Como o faria agora 
que a vejo tão doente? 

— Não será talvez necessário recorrer a esse 
extremo. Por meios brandos ! . . . 

Duarte voltou ao quarto da filha. 

Esse homem, que representa na familia um 
papel importante pela sua nuUidade, é negoci- 
ante: trabalhou toda a vida para enriquecer; de- 
pois de rico só vive para ser millionario. 

Essa febre n'elle não é ambição, mas des- 
tino. Quer a riqueza para seus filhos, parentes e 
amigos; para si conserva a antiga mediocri- 
dade. Nunca até hoje o Sr. Duart-e admittiu a 
menor alteração em seu systema de vida, e nos 
hábitos do homem pobre e la1x)rioso, que fora. 

A riqueza não o fez melhor nem peior; mu- 
dou de fortuna, não mudou de caracter, nem de 
sentimentos. O luxo, que desde muito tempo tatia 
á porta de sua velha habitação, devia penetral-a 
emfim, um bello dia, sem que elle tivesse consci- 
ência d'isso. Quasi se pôde affirmar que o não 
percebeu. Para eIJe essa grande revolução do- 
me&tica não passava de uma questão de paga- 
mento, e portanto da competência do seu caixa. 

I 19 ] 



11 

I 

M 



SP,' 



josé de Alencar 

Ém resumo, tem Duarte uma dessas natu- 
rezas essencialmente mercantis, que nascem pre- 
destinadas para o negocio, e só respirão livre- 
mente na atmosphera do armazém. De resto, uma 
boa alma, methodica e fria, como deve ser uma 
alma acclimada ao balcão desde a infância, e 
educada exclusivamente para o juro e a conta 
corrente. 

N'essa alma, como nos canteiros regulares de 
um jardim, não brota a urze das paixões, mas 
vem bem e com syraetria a flor cultivada dos 
affectos calmos. Duarte ama sua familia e estima 
seus amigos cora sinceridade, mas passivamente, 
sem iniciativa. Capaz de qualquer sacrifício que 
exijão d'eile, nunca teve a espontaneidade do mais 
insignificante favor. Não offerece, ma« também 
não recusa seu dinheiro, como sua amizade. 

P negociante voltou acabrunhado: 

— Ella recusa ! murmurou. 

— D'este modo não sei o que faça. Entre- 
tanto a Imolestia é grave. ^ 

— Porque não receita já? 

— Não posso indicar um' tratamento sem co- 
nhecer a. moléstia. 

— Pois, Sr. doutor, eu tembem não posso 
usar ide rigor com Alila, porque sei que isso seria 
m-atal-a mais depressa. 



Duarte deixou-«e cahir sobre uma cadeira, 
Ij; 6 euccumtiiu á dôr: as lagrimas saltárão-lhe dos 

11 olhos. 

pÀ — O que tne parece mais acertado, é chamar 

|20I 



Diva 

V. S. um medico de sua confiança, habituado 
a tratar na familia. 

— Já não existe 1 exclamou com um soluço. 
Qualquer outro que venha, me responderá o mes- 
mio que o senhor! Meu Deus! Condemnado a ver 
morrer minha filha, sem poder salval-a. 

-— Bem, Sr. Duarte. Eu tratarei de sua filha. 

A moléstia era realmente g-rave; nada me- 
nos do que uma pneumonia dupla. Tive de lu- 
tar com a enfermidade rebelde e a tenacidade 
inflexível de um- caracter singular de menina ha- 
bituada a ver satisfeitas todas as suas vontades, 
como ordens imperiosas. 

Emília tomára-me tal rancor, que não me 
deixou mais penetrar em seu aposento. Se ador- 
mecia, e eu advertido por Julinha ou por D. 
Leocadia me cheg-ava ao leito, mal lhe tocava 
o pulso, ella acordava com sobresaltos, volvendo 
os olhos inquietos pelo aposento . 

Occultava-me então do lado da cabeceira, en- 
tre a parede e o cortinado, e d'ahi esgueirava-me 
pela porta. Uma occasião, um olhar de Julinha 
trahiu-nos; ella surpreendeu-me e gritou cobrindo 
o rosto: 

— Deitem fora este homem! 

D. Leocadia e o irmão se affligião muito com 
os caprichos de Emília; mas não tinhão nem^ a 
força nem a vontade de contraria-la, embora te- 
messem a cada instante que a minha susceptibi- 
lidade se lof fendesse com aquelles modos ríspidos. 

Mas o meu orgulho de medico principiante 
estava empenhado n'essa cura. Era ella que de- 

I 21 1 



José de Alencar 

via Ime dar a consciência da minha força ou tal- 
YG7. o desengano de uma carreira. Foi ella que de- 
cidiu do ttneu futuro . 

Nunca, até então, eu assumira a tremenda 
responsabilidade da conservação de uma vida, que 
um erno» 'meu, um' instante de hesitação podião 
sacrificar. E não era uma vida indifferenfce . . . 
Essa menina caprichosa, calma e impassível ' á 
dór, velando-se como a& virgens martj^res do chris- 
tianistaio para morrer pudicamente . . . Essa me- 
nina inspirava-me não sei que estranho e vivo 
interesse. 

Eu sentia, combatendo sua enfermidade, o que 
devem sentir os grandes artistas tratando um as- 
sunto difficil; raiva e desespero, quando a consci- 
ência da minha fraqueza contra as leis da natureza 
me acabrunhava; júbilos iramensoe, quando meu 
espirito, tirando forças da sciencia e da vontade, 
arcava com a moléstia e a subjugava por instan- 
te-s. 

Unia vez perdi a esperança. 

D. Loocadia dormitava extenuada á cabeceira 
do leito. Emilia não dava mais acordo de si. 

Aproximei-me ; a mascara da morte cobria já 
aquelle rosto diaphano. Sentei-me á borda do lei- 
to, e não pude reter as lagrimas que me saltarão 
em bagas dos olhos. 

Santa virgindade das emoções, primeiros or- 
valhos do coração, que a aridez do mundo tão 
depressa estancai A quantos espectáculos pun- 
gentes não tenho eu assistido depois com os olhos 
enxutos e o espirito sereno! 

I22J 






Diva 



D. Leocadia abriu os olhos: 

— Não ha mais esperança, doutor? 
Enxuguei as lagrimas envergonhado, e achei 

em' mim uma energia nova. Lancei mão dos úl- 
timos recursos. Um mez arquei com a dissolução 
que invadia esse corpo frágil, disputando ás gar- 
ras da morte os sobejos de vida, que lhe fal- 
tava (devorar. Tinha, a pedido do Sr. Duarte, fi- 
cado em sua casa»; e a isso a esse cuidado inces- 
sante de todas as horas e de todos os momentos, 
devo o resultado que obtive. 

Venci afinal. Mal sabia eu da influencia que 
devia ter no meu destino essa existência, cujos 
frouxos clarões, prestes a "se apagarem, eu rea- t] 

nimára com os lumes de minha alma. «: 

Emilia entrou em convalescença. A gratidão ' _ 

do pai foi sincera; sua recompensa generosa. Acei- ' 

tei a primeira e recusei a ultima. 

— Porque? me perguntarias talvez. 

Era, como te disse, o meu primeiro triumpho 
em medicina; trabalhei para elle como o sacer- 
dote de minha nova religião. Por um d'esses mo- 
tivos mysteriosos do coração que não se explicão, 
quiz sagrai -o unic-amente á sciencia, extreme e li 

puro de todo o interesse pecuniário. Tal foi o 
motivo ide minha recusa^, e não mal entendido pu- -'; 

dor de receber a justa remuneração de tão nobre 
serviço, ^ 

Escrevi ao Sr. Duarte pouco mais ou menos 
o, seguinte: 

«Foi Deus quem' salvou D. Emilia; a elle 



:3 



[23) 



José de Alencar 

devemos agradecer, o senhor, a vida de sua fi- 
lha, eu, minlia felicidade. 

«Meu -primeiro doente foi para mim como um' 
primeiro filho. As emoções que senti lutando com 
a moléstia, as ang:ustias por que passei nas suas 
recfudoscencias, o desespero de minha fraqueza 
n'esses 'momentos, um pai os deve comprehender. 

«Essas emoções .sió podião ter uma recom'- 
pensa. Já a recebi do meu coração. Foi a pura 
e santa alegria de restituir a vida querida, que 
me fora confiada. Substituil-a por outra, não se- 
ria generoso de sua parte, Sr. Duarte.» 

O negoíúante ainda me procurou, e insistiu, 
mas inutilmente. Afinal lhe disse: 

— Eu conheço, Sr. Duarte, que faço uma 
violência à sua generosidade. Mas, em compen- 
sação lhe prometto... Começo a minha vida; é 
possível que alguma vez me veja em embaraços. 
N'esse caso recorrerei ao senhor! 

— Promette-me ? 

— Dou-lhe minha palavra. 

Pouco tempo depois sabes que fui á Europa, 
onde me demorei perto de dois annos. Fizemos 
juntos até Pernambuco a viagem, de que nasceu 
a nossa boa e sincera amizade. Se não me en- 
gano, em nossas conversas intimas a bordo fa- 
lei-te alguma vez d'essa família, mas sem as par- 
ticularidades que refiro agora. 

Então ainda a luz intensa da paixão, que 
veiu depois, não tinha debuxado, como estereo- 
typo nas laminas do coração, a imagem viva 
d'essa tafenina. 

.1 24 I 



Diva 



III 



VOLTANDO da Europa, a iprimeira visita que 
recebi foi a do Sr. Duarte. 
Tinha-me despedido d'elle e de sua fa- 
milia; in'essa loccasião ainda, apezar dos esforços 
do pai, Emilia não me quiz apparecer. Também 
eu já não reparava na vergonhosa esquivan^ 
da menina. 

Visitando lO negociante, vi ao entrar na sala 
uina linda moçta., que não reconheci. 

Estava só. De pé no vão da janella cheia de 
luz, meio reclinada ao peitoril, tinha na mão um 
livro aberto e lia com attenção. 

NãíO é possível idear nada mais puro e har- 
monioso do que o perfil d'essa e^statua de moça. 

Era lalta e esbelta. Tinha um^ d'esses talhes 
flexíveis e lançados, que são hastes de lyrio para 
o rosto gentil; porém na mesma delicadeza do 
porte esculpião-se os contornos mais graciosos com 
firm^> nitidez das linhas e uma deliciosa suavidade 
nos relevos. 

Não era alva, também não era morena. Ti- 
nha isua iez: a côr das pétalas da magnólia, quan- 
do vão desfallecendo ao beijo do sol. Mimosa côr 
de mulher, se a avelluda a pubescencia juvenil, 
e a luz coa pelo fino tecido, e xxpif sangue puro 
a escumilha de róseo matiz. A d!^la era assim. 

Uma altivez de rainha cingijníte a fronte, 






[25) 



José de Alencar 

como diadema, scintillando na cabeça de um anjo. 
Havia em toda a sua pessoa um quer que fosse 
de sublime e excelso que a abstrahia da terra. 
Contemplando-a n'aquelle instante de enlevo, dir- 
se-hia ique ella se preparava para sua celeste 
ascensão. 

Ás vezes, porémi^ a impressião da leitura tur- 
bava a serena elação da sua figura, e despertava 
n'ella a mulher. Então desferia jalma por todos 
os poros. Os grandes olhos, velutados de negro, 
rasgavião-se para dardejar as centelhas eléctricas 
do nerA^oso organismo. N'esses momentos toda ella 
era somente corajçião, porque toda ella palpitava 
e sentia. 

Eu tinha parado na porta, e admirava: afi- 
nal íidiantei4ne para comprimental-a. Ouvindo o 
rumor dos meus passos, ella voltou-se. 

— Minha senhora! . . . murmurei inclinando -me. 

As cores fugírão-lhe. Ella vestiu-se como de 
uma túnica livida e glacial: logo depois sua phy- 
sionomia annuviou-ise, e eu vi lampejos fuzila- 
rem n'aquella densidade de uma cólera súbita. 

Fulminou-se com um olhar augusto, e des- 
appareceu. 

Acreditas, Paulo, que essa moça que te des- 
crevi fosse Emilia, a menina feia e desgraciosa 
que teu deixara dois annos antes? Que sublime 
trabalho de florescência animada não realizara a 
natureza n'essa mulher 1 

Emilia teria então dezesete annos. Sentia-se, 
olhando-a., a influencia mysteriosa que um es- 
pirito superior tinha exercido na revolução ope- 

[26] 



f 



Diva ■ J^ 

radíi em sua pessoa. O trajo, ainda nimiamente 
avaro dos encantos que occuliava, era de um 
molde severo; mas havia no gracioso da forma 
e na combinação do enfeite, uns toques artísticos, 
que se revelavão também no basto trançado do 
luxuoso cabello negro. 

Voltei impressionado por essa visão de sala 
em pleno dia. 

Se a transformação de Emilia produzira em 
mim uma admiração grande, maior foi a humi- 
lhação que soffri com o seu desdém. Já não era 
uma menina; estava moç^., e não me devia só 
a cortezia a que tem direito o homem delicado; 
devia -me gratidão. ' ^.. 

— Talvez ignorei disse eu comigo. «; 
Nos diaâ que se seguirão, surgiu alguma vez j^' 

em meu espirito aquella imagem de moça; mas 
essa lembrança me incommodava. 

Uma tarde encontrei-me com o irmão: 

— Ia á tua casal disse-me Geraldo. 

— Pois vamos. "* 

— Não. Já que te encontrei poupa-me essa 

maçada. Minha tia manda-te dizer que amanhã ^^ 
toma-se chá em sua casa. Julinha faz annas. 

— Ah! D. Mathilde? ^ 

— Sim. Adeus. ^. 

— Espera. > Ij 

— Não posso. Ainda vou á chácara, e te- i^ 
nho de voltar para o theatro. 3 

D. Mathilde é casada com um irmão de Du- 
arte. Seu marido vive constantemente na fazenda, 
trabalhando para tirar d'ella os avultados ren- 

[27] 



José de Alencar 

dimentos necessários ao luxo que sua familia os- 
tenta na corte. 

Ainda moça, bonita e muito eleg'ante, ella é 
perdida pelo cortejo e galanteio de sala. Nunca 
a honra conjug-al succumbiu a essa fascina-ção, 
mas a casta dignidade da esposa foi sacrificada 
sem reserva. 

Sua casa nobre em Matacavallos é ponto de 
reunião diária para uma parte da boa sociedade 
do Rio de Janeiro. Todas as noites as salas rica- 
mente adereçadas se abrem ás visitas habituaes. 
Nos domingos ha jantar para um circulo mais 
escolhido. De mez em mez apparece um pretexto 
qualquer para um baile. 

Não te falo d'esta casa somente por ter sido 
uma scena no drama de minha vida. Foi tam- 
bém, como soube depois, uma escola pa-ra Emilia. 

Essa moça tinha desde tenros annos o es- 
pirito mais cultivado do que faria suppôr o seu 
natural acanhamento. Lia muito, e, já de longe 
penetrava o mundo com olhar perspicaz, embora 
através das illusões douradas. Sua imaginação fora 
a tempo educada: ella desenhava bem, sabia mu- 
sica e a executava com mestina; excedia-se em 
tcdos os mimosos lavores de agulha, que são 
prendas da mulher. 

— Eu nasci artista!... me disse ella muitas 
vezes sorrindo. 

E realmente, havia em sua alma a centelha 
divina que forma essas grandes artistas de sala, 
que nós chamamos senhoras elegantes: artistas 
que por cinzelarem' imagens vivas e talharem era 

[28] 



Diva 



seda e velludo, não são menos sublimes que ô 
esculptor quando talha no mármore a belleza ina- 
nimada. 

Maí; faltava aindia á jntellig^nte menina o tacto 
fino e o suave colorido que o pintor só adquire 
na tela e a mulher na sala, a qual tamtofem: é 
tela para o painel de sua foiTnosura. Foi nas 
reuniões de D. Mathilde que Emilia deu os ul- 
tinros toques á sua especial elegância. 

Nião copiou, nem imitou. Começando a ap- 5; 

parecer em casa da tia pouco tempo antes da mi- 



K'i 



nha volta, ella observava. Seu bom gosto se apu- íj 

rou; um bello dia surgiu outra; a elegância teve f"* 

n'ella um molde seu, próprio e original. ?■ 

Quando aos dezoito annos ella põz o remate 
a esse primor de esculptura viva e poliu a es- : 

■tatua de sua belleza, havia attingido ao sublime 
da' arte. Podia então, e devia, ter o nobre orgu- 
lho do génio creador. Ella cre^ira o ideal da Vénus 
moderna, a diva dos salões, como Phidias tinha 
creado o typo da Vénus primitiva. 



IV 

POUCAS entradas tinha eu em casa de D. 
Mathilde n'aquella época. O convite me 
> sorprendeu; e ainda mais quando no dia 
seguinte recebi um cartão de visita da senhora 
com palavras afectuosas. 

Tive mais tarde a explicação d'essa e mui- 



[29 1 



José de Alencar 

tas lOutras finezas que recebi de toda aquella fa- 
milia. O pai e as tias de Emilia queriã,Of, com 
as repetidas provas de sua bondade, apagar qual- 
quer resentiraento que pudessem gerar no meu 
espirito os modos rispi,dos da menina, agora moça. 
Muitas vezes procuravão desculpal-a com seu ex- 
cessivo acanhamento. 

O baile foi esplendido. D. Mathilde trium- 
phava, no meio de suas rivaes e aos olhos de 
seus adoradores. 

Lá estava Emilia. 

Ainda a flor agreste de sua gentileza não se 
havia acclimado á atmosphera do baile. EUa per- 
dia á Djoite e no meio do salão ornado pelas 
mais elegantes formosuras da corte. Js^ão t^nha 
ali nem a suave limpidez do desalinho, em que 
eui a vira antes; nemi o fulgor radiante, que tanto 
admirei depois. Era o crepúsculo matutino de uma 
rosa, que abotoara á noite e ainda não desatara 
ao sol. 

Estive conversando com D. Leocadia algum 
tempo; quando me ergui ella perguntou: 

— Não dansa, doutor? 

— Pôde ser, minha senhora. 

— Danse ! . . . Olhe I Vá tirar Mila. 

E a boa senhora mostrou a sobrinha sentada 
a algiima distancia. 

Aproximei-me. Já o baile tinha perdido a 
symetria da entrada, no meio da confusão que é 
o seu tmaior encanto: a mtisica, as vozes, os 
risos, os rugeruges das sedas, os borborinhos da 
festa, enchião o salão. 

130] 



[31] 



p vi 



Divã 



No írneio d'essa multidão jovial, Emília tinha 
uma attitude de corça arisca, erriçando os \e- 
lo3 macios e estremecendo aos rumores vagos da 
floresta. A menor palavra, um vestido que ro- 
çava, uma somtra a projectar -se, a assustavão. 
Oomtudo, ás vezes, á força de vontade, ella arran- 
cava d 'essa mesma timidez audácias ingénuas, que 
não teria mua senhora: erigia a fronte com al- 
tivos desdéns, e fitava em face qualquer homem 
que a olhava. ?; 

Gomprimentei-a. Inclinou a fronte, não para 
corresponder-me, mas para esquivar-me o rosto. 
Quando lhe pedi a contradansa, creio que ella 
fez um grande esforço, porque o seu pescoço de 
cysiy? ^perdeu a doce flexibilidade : ergueu a ca- 
beça com certa aspereza. 

Pôz os olhos em' meu rosto, e correu-me um 
olhar frio e gelado, que me tranziu. 

— Não, senhor; disse com' a voz secca e rís- 
pida. 

Ainda eu estava imtaovel diante d'ella, quando 
chegou-se pressuroso o Barbosinha: 

— Já tem par para esta contradansa, D. Emi 
lia! 

— Ainda não tenho, não senhor; respondeu 
ella com a pronuncia clara e vibrante. 

— Então, faz-me a honra de dansar comigo ? 

Levantou-se para tomar o braço do cava- 
lheiro. Eu tive uma vertigem de cólera; era a 
segunda vez que essa menina humilhava-!me. 

D. Leocadia passou n*essa occasião. 

— Ahl Não quiz dansar com Mila? 



WH»'í 



José de AleHcar 

— Ao contrario, não lhe mereci essa fineza. 

— Pois ella recusou ! disse a senhora con- 
trariada. 

— Naturalmente já tinha par, D. Leocadia. 

Emilia, que se coUocára para a quadrilha a 
pequena distancia, voltou -se rápida ao ouvir as 
minhas palavras. Um fino sorriso de ironia i)a8- 
sou-lhe fugace entre os lábios. 

— Vou prevenil-a para a seguinte, me ha- 
via respondido a tia. 

— Perdão, D. Leocadia! Teria com' isso o 
maior prazer, mas ... eu me retiro já. 

— Deveras, doutor? ate-lhou D. Mathilde, que 
atravessava o salão. Dê -me o seu traço. Então, 
como é isso? O senhor já se retira? 

— Estava n'essa intenção, D. Mathilde; ma.s 
agora, admira-me como a pude ter. 

— Ah! É catavento assim? 

— Quem deixará de o ser, quando o sopro 
vem perfumado da mais linda toca^ 

— Eu devia punil-o por ser tão lisongeiro, 
otrigando-o a dansar comigo esta contradansa... 

— Isso seria a minha recompensa. 

— Parece -lhe? .. .Pois vou dar-lhe outra mais 
doce. 

D. Mathilde fez com o leque um aceno á 
filha : 

— Julinha? ^ 

— Mamai ! 

— Dansa com o Sr. Amaral, © rô se conso- 
guee fazei -o esquecer as horas. 

[32] , 

-— -■' -■- -^ -~ 1 — -«i— n m i ¥ i ~i ipi j 



bi 



iva 



~-Ao menos a piiniçião é g-enerosai: foge-me 
ó original, mas deixa-rae a cópia sua. 

Isto foi dito emquanto a menina trocara al- 
gumas palavras com uma amiga. D. Mathilde es- 
perava (O meu comprimento, e o agradeceu com 
terno sorriso: 

— Antes que me esqueça, doutor, disse -me 
ella; nós estam'Os em casa todas as noites que 
não forem de baile ou theatro lyrico: e nas 
quintas -feiras com' especialidade. 

A prima e companheira de infância de Emi- ç' 

lia era uma moça muito galante. Parecia -se com <li 

a miai somente no rosto: o talhe não o tinha «=:Í 



IS ■ 



nem alto nem esbelto, mas admiravelmente tor- « 

neado. l 

"Julinha nunca foi loureira; faltava-lhe para 
isso o orgulho de sua formosura, e a inveja da ■ 

formosura alheia. Mas, educada na sala, aos raios 
da galanteria materna, perdera cedo o casto per- • 

fume. Desde menina habituou-se a ser amimada 
ao coUo e beijada por quantos frequentavão a ^" 

casa. Ij 

Deus a tinha feito nimiamente boa e com- 
passiva; por isso quando chegou a idade do co^ *'^ 

raçião, ella não soube recusar ao amor as caricias, |^ 

que forã.0 brincos da infância. Suas affeições erão -; 

sempre sinceras e leaes; nunca trahiu nem por ^^ 

ponsamento o seu escolhido; ma« também se este ^ 

a esquecia e mudava, ella facilmente se consolava, 
porque em' naturezas como a sua, o amor não cria 
raízes profundas, e só vegeta á superfície d'alma. 

Continuei a frequentar a casa de D. Mathil-: 

I33J . 



José de Alencar 

de. AUi durante um mez, Emília não perdeu occa- 
siáo de crivar -me o coração com os alfinetes de 
siia cólera feminina. 

Uma noite de reunião, servia-se o chocolate. 
EUa ia tomar uma chicara na bandeja que pas- 
(sava, quando o criado sem perceber o movimento 
seguiu. Se visses ,o taei^o império do olhar que 
me lançou comprehenderias porque, apezar de 
meu resentlmento, apressei-me a servil-a. 

Entretanto quando lhe offereci o chocolate, re- 
cebeu inteiramente distrahida, sem me olhar. 

— Muito agradecida! disse-me, atirando a pa- 
lavra da ponta do beiço o mais lindo, e também 
b mais desdenhoso. 

Ectirei a mão, julgando que ella sustinha en- 
tre os dedos delicado9 a chicara; mas esta acabava 
de espedaçar^se no chão manchando a saia acha- 
malotada de seu rico vestido de seda azul. 

Elnilia ficou impassível. Volvendo lentamente 
O rosto, atirou-me por cima do hombro estas duas 
palavras que vierão afogadas no escarneo: 

— Com effeito 1 . . . 
E retirou-se da sala. 

Ella tinha deixado cahir a chicara de propó- 
sito; mas n'aquella occasiãiO' estava eu bem longe de 
suspeitai -o. Lancei toda a culpa sobr|3 mim; e 
tive-me em conta do maior desastrado. 

Procurei-a: já tinha partido. Na próxima quin- 
ta-feira, logo que cheguei, dirigi-me a ella para 
lhe pedir perdão de mijiha inadvertência: 

— Peçodhe mil desculpas, minha senhora, pelo 
que succedeu! 

134] 

X 

/ " 



■' ■■.^■ppwnii •■■ I 



Divâ 



— Quando ? 

— Quinta-feira passada. 

— Não me lembro. 

— Aquella minha distracção de deixar cahir 
a eh içara . . . 

— Ah! foi o senhor?... Nem reparei! disse- 
nit! com a maior indifferença. 

Esta palavra me of fende li mais que tu<io 
quanto me tinha feito essa moça. Nem sequer 
com seu ódio ella se dig^nava me distinguir ! 

De dia em dia a sua aversão tornou-se mais 
clara, Ella procurava sempre esquivar -se ao meu » • 

cumprimento, e quando 'de todo não podia evital-o, í; 

recetia-o com fria altivez. Se estava ao piano *■ 

e eu chegava, erguia-se, deixando suspensos os l' 

que a louvião tocar ou cantar. Inventava então 
qualquer dos pretextos em qus era fértil seu es- 
pirita vivaz, porém, o verdadeiro motivo deixava-o 
tem transparente. Se eu me aproximava do cir- 
culo onde ella conversava, cliama-do por alguma 
palavra amável de D. Leocadia, calava-se imme- 
diatamente, e no primeiro momento favorável ecli- - 

psava-se. 

Duas lou três vezes, chegando á casa de D. 
Mathilde, .achei-a enti"etida a trincar com a pri- .,; 

ima e algumas amigas. Vendo-me .entrar na sala, 
levantou-se bruscamente, e despedki-se das outras 
sorpresas : 3 

— Adeus ! Adeus ! . . . Vamos, Geraldo I 

Tomava o chapéo; o irmão contrariado a se- 
guia; entra vãC' no carro, e partião para a chácara, 



ri 



[35 1 



José de Aleiícai' 

apezav de ter ella promettido passar o dia com Ju- 
linha,, e serem já horas do jantar. 

Tudo isso me convenceu afinal que o proce- 
dimento de Emilia não era filho de uma simples 
antipathia, mas de um propósito firme de humi- 
lhar -me. 

Parecia um eystema de perseg-uição acintosa. 
O instincto da defesa acordou em mim., e com elle 
o desejo da vingança. De longe e disfarçada- 
mente comecei a estudar essa moça, resolvido a 
descobrir o seu ponto vulnerável. 

Desde que a Du-artezinha, como a chamavão 
nos salões, appareceu nas reuniões de D. Ma- 
thilde, foi log-o cercada por uma multidão de admi- 
radores. Sua nobre altivez os mantinha em res- 
peitosa distancia. Ella conservava sem^are na saia, 
como na intimidade, um mimo de orgulhosa es- 
quivança, que afastava sem offcnder. 

Quando, porém, algum mais apaixonado ou 
meniOs perspicaz de seus admiradores, ousava trans- 
por /jiquella rég'ia altivez e casta aureola em que 
ella resplandecia, então sua cólera revestia certa 
mag^stade olympia que fulminava. 

Emilia não valsava; nunca nos bailes ella 
consentiu que o braço de um homem lhe cin- 
gisse iO talhe. Na contradansa as pontas dos seus 
dedos afilados, sempre calçados nas luvas, apenas 
rcçavão a palma do cavalheiro: o mesmo era 
quando aceitava o braço de alguém'. Bem dif- 
ferente n'isso de certas moças que passeião nas 
salas reclinadas ao peito de seus pares, Emilia 

I 36 ] 



Diva 



não consentia que a imanga de uma casaca roçasse 
nem de leve as rendas do seu decote. 

Uma noite, dansando com o Amorim, sócio 
de seu pai, recolheu a mlão de repente, e deixou 
cahir sobre elle um dos seus olhaxes de Juno 
irritada : 

— Ainda não sebe como se dá a mão a uma 
senhiora? disse com desprezo. 

Proferidas estas palavras, sentou-se no meio 
da quadrilha, e nunca mais dansou com elle. O 



Í37J 



> 



Amorim em uma das marcas, tinha-lhe inadver- ç 

tidamente tomado a mão, em vez de apresentar- ^• 

lhe a sua. v:i 



c? <*! 



Frequentava as, reuniões de D. Mathilde um j; 

moço (Official de marinha, o tenente Veig-a. Tinha C 

uma nobre figura e o cunho da verdadeira bel- »: 

leza marcial. Era um dos mais ferventes adora- 
dores de Emilia. Tirando a para dansar uma noite, 
ella ergueu-se e ia dar-lhe o braço; mas retra- 
hiu-se logo e tornou a sentar-se. 

— Desculpe-me. Não posso dansar ly 

— For que motivo, D. Emilia?/^ - ^. 
Ella calou -se; mas fitou-lhe as mãos com 

olhos tão expressivos que o moço comprehendeu 

e corou: ^: 

— Tem razão. Tirei as luvas para tomar chá 
e esqueci^me de calçal-as. 

Estes e muitos outros pequenos factos erão 
commentados no salão de D. Mathilde pela^ ou- 
tras ímo^Ã, que não perdoavão a Emilia tantas 
superioridades, como ella tinha; pois cingia-lhe a 



( 



José de .Alencar 

fi*onte a tríplice coroa da belleza, do espirito e 
da riqueza. , 

Muitas vezes eu assistia calado aos tiroteios 
d'essa guerra feminina. 

Alguma rival, otservando a suprema delica- 
deza do gesto ca^to e gracioso de Emilia, raia- 
va-se de inveja e dizia para as amigas : 

— Ai gentes I Não me toquem ! . . . 

— É mesmo um alfenim I acudia outra. 

— Pois ha quem supporte aquillo ? 

— Ora! É rica! Tem bom dote! 

— Já repararão? Nem ao mano ella se di- 
gna apertar a mão! 

— Tem medo que lh'a quebrem, coitadinha!... 

— Não falem assim! dizia Júlia voltando-se 
com um gesto supplicante. Que mal lhes fez Mi- 
ta?... Pois olhem! Eu acho aquelles modos tão 
bonitos! . . . 

E Júlia, a flor exhale da sua fragrância, 
tomava a defesa da prima, e fazia com umia 
doce taelancholia o elogio d'aquelle suave matiz 
de pudicícia, que ella, misera, tão cedo perdera. 
OuvindjO-a, eu me sentia attrahido para essa boa 
alma, que Deus tinha feito para a familia e a 
mãi desterrara para o mundo. 

Apezar da esquivança constante de Elnilia, 
eu observei, depois de algumas semanas, que ella 
tinha um circulo especial de admiradores, onde 
escolhia habitualmente seus pares. 

. Esses felizes preferidos obtinhão, além do fa- 
vor da costumada contradansa, um largo inter- 
vallo de conversa intima. 

[38] 



=£ri 



Diva 



W 'essas oceasiões ella falava pouco; apenas 
de espaçio a espaço dizia algumas palavras; mas 
escutava com' visivel interesse, séria umas ve- 
zes, loutras sorrindo. 

Quando confirmei esta, minha observação, senti 
n'alma, ,o agridoce dos prazeres, que á semelhança 
do vinho se derranoão no coração. 

— É ,uma namoradeira! murmurou minha alma 
vingada, íporém triste. 

A belleza sem macula d'essa menina humi- 
lhava -me; mas a profanaçtão de sua alma, que 
eu lobrigava n'aquellas preferencias de sala, me *, 

confrangeu o coração. 

— Não é por ella que eu sinto; pensava eu. ^ 
É por sua faanilia, especialmente por seu pai a 
quem estimo . ' 

Como procurava eu illudir-me! 






POR esse tempo Emilia fez a sua entrada no 
Cassino. 
— Já viu a rainha do baile? disserao-me 
Logo que cheguei. . fú 

— Ainda não. Quem é? 3| 

— A Duartesinha. 

— Ahl 
Realmente, a soberania da formosura e ele- 

(39 1 



i»-i. 



José de Alencar 

í^ancia, ella a tinha conquistado. Parecia que es^ 
menina se guardara até aquelle instante, para de 
improviso e no iiais fidalgo salão da côrbe fa- 
zer sua iDrilliante metamorphose. íí'essa noite ella 
quiz lostentar-se deusa; e vestiu os fulgores da 
telleza, que desde entãoi arrastarão após si a admi- 
ração geral. 

Seu trajo era um primor do género, pelo 
mlniiOiSO e deli(3ado. Trazia o vestido de alvas es- 
cumilhas, com a saia toda rofada de largos fo- 
lhos. Pequenos ramos de urze, com um só botão 
cor de rosa, apanhavão os íôfos transparentes, 
que o menor sopro faaia arfar. O forro de seda 
do corpinho, ligeiramente decotado, apenas debu- 
xava entre a fina gaza os contornos nascentes do 
gai'c©o coUo ; e d'entre as nuvens de rendas das 
mangas só escapava/ a parte inferior do mais lindo 
fcraçio. 

Bra o toque severo do pudor corrigindo a 
túnica da vestal imniolada á admiração ardente 
das turbas. 

Quando Emilia sentava-se, abatendo com a 
mão afilada os rofos da escossia, parecia-me um 
cysne colhendo as azaâ á margem djo lago, e 
arrufando as niveas pennas. Quando erguia-«e e 
oolleava o talhe flexível fazendo tremular as bran- 
~-^s roupagens, lembrava o gracioso mytho da 
tefleza, que surgiu mulher da espuma das ondas, 
\ Estive contemplando-a de longe. A multidão 
de èeus adoradores a cercava como de costume, 
e ellá distrifcuia aos seus predilectos as quadri- 
lhas "que pretendia dansar. Pela expressãto de ju- 

[40 1 



i*«»>(i»|«llSpi««""w— «■•"•••'"•■'•'■•P»" 



uiva 



,bilo €u Ide contrariedade dos que voltavão, eu 
conhecia se tinhão sido ou não íelízes. 

Que interesse tão vivo achava eu n'essa obser- 
vação ? 

Já comprehendeste som duvida, Paulo, que 
essa menina me preoccupava mau grado meu. 
Pois sabe, que n'aquelle momento tinha inxeja 
dos preferidos ; ai^ezar do juramento que ■ eu fi- 
zera de nunca dansar com ella depois da desfeita 
que seffri, commetteria a indignidade de ir sup- 
plicar-lhe ainda a graça de uma quadrilha, se 
não temesse nova e humilhante repulsa. 

Livre um instante de sua roda de admira- 
dores, Emilia correu a vista pelo salão, e fitou-a 
em mim com uma persistência incommoda. Ella * 

tinha, quando queria, olhares de uma attracção 
imperiosa e irresistível que cravavão um homem, 
o prendião e levavão captivo e submisso a seus 
pés. Eu resistia comtudo; mas ella me sorriu. 
Então não tive mais consciência de mim; deixei-me 
em'beber n'aquelle sorriso,^ e fui, cego da alma que 
ella me raptara e dos olhos que me deslumbrava. ""-^ 

— D. Emilia . . . balbuciei cortejando. |^ 

Mas que estranha mutação! Sua esplendida 
belleza oongelou-se. As longas pálpebras ergui- ^ 

das parecião fixas sobre uns olhos li vidos e mor- |» 

tos. Resvalando pela tez baça, as luzes palieja- r?5 

vão-lhe a fronte jaspeada. O talhe de suaves cndu- í- 

lações crispava-se agora com uma rigidez grani- q 

tíca. Senti, aproximando-me, exhalar-se d'ella a 
frialdade, que envolve como um sudário trans- 
parente ^ estatuas de mármore, 



C; ' I 



(41 I 



José de Alencar 

Passei, e tão alheio de mim, que não veria 
Julinha e D. Mathilde ali sentadas, se esta não 
me advertisse da minha falta. 

— Boa noite, doutor ! Que distrahido que elle 
está hoje! 

— Perdão, D. Mathilde! Comio passou?... Ta 
com effeito, não distrahido, mas offuscado, por 
tanto luxo e formosura. A culpa por conseguinte 
tamlem lhe cabe, e em grande parte! 

— Quando é qua o senhor ha de perder o cos- 
tume de ser lisongeiro? 

— Quando a senhora quizer acreditar -mel 

D. Mathilde começou então a sua revista do 
,baile, que eu escutei, sem ouvir. Emilia estava 
ali perto; eu não a olhava, mas sentia. 

— Julinha!... disse ella rindo. Sabes quan- 
tas contradansas já me fizerão aceitar? Quinze!... 

— Se dansar-se a metade, será muito ! 

— Não, eng-anei-me, não forão quinze. Para 
a terceira não aceitei. 

— Porque? perguntou a prima. 

— Guardei esta . . . para mim . . . para ficar sen- 
tada. 

. — Que lembrança. 

— Depois . . . Quem sabe ? . . . Talvez me re- 
solva a dansar. Se me pedirem muito!... 

Emilia sorria dizendo essas palavras, e eu 
senti a luz de seus olhos ferir -me a vista. 

Meus espiritos alvoroçados serenarão como por 
encanto, Eeconheci-me o homem que fui e sou; 
frio e sempre calmo, durante o somno profundo 

[42] 



mm 



Diva 

\ 

e kaigio diO coração, o qual até agora falizmente 
só teve uma, mas beln cruel vig-ilia. 

Comprehendi tudo; comprehendi o olhar, o 
Sforriso e o dialogo. Emilia me provocava directa- 
mente para lhe pedir aquella terceira contradansa 
reservada; queria me ver supplicante a seus pés, 
e vil, apezar da primeira humilhação. Então, quan- 
do sua vaidade estivesse saciada, me insultaria 
de novo do alto de seu orgulho, flagellando-me as 
faces com um d'aquelles seus olhares de soberano 
desprezo. 

Minto: eu não tinha comDrehendido nada.. 
Ainda hoie, depois de tudo quanto soffri, sei cu íJi 

comprehender semelhante mulher? (jj 

Desde que entrevi a perfídia da provocação, 
cohrei a calnDa. Também tive o meu sorriso des- 
denhoso e o meu gesto de indifferença. Pedi a 
D. Mathilde justamente a terceira contradansa, 
e ella m''a concedeu, apezar de já a ter promet- 
tido: 

— Farei uma troca ! disse-me. Dansarei a quin- 
ta com o Dr. Chaves. 

Minha intenção foi convencer logo a Emilia 
que ella se illudia. Desejava que não pairasse 
no seu espirito a minima esperança de que eu *^ 

me deixasse immolar ao seu orgulho. Ella bem 
me entendeu. Seu dente mimoso mordendo o lá- 
bio, annunciou-me a sua cólera e a minha puni- ^-j 
ção. ^ 

Esta não tardou muito. 

Tinha-me eu retirado do salão, e estivera con- 
versando n'uma das salas próximas. Dando a mu- 

■ [43] 






^» 



José de Alencar 

sica sigHal cie qm o ba.ile ia começiar, lembrei-me d>í 
que Julinha me promettêra na véspera a primeira 
quadrilha e fui-me aproximando. 

Creio que viste o antig-o Cassino, de feia 
architectura e pobre decoração, porém mais fes- 
tejado que o moderno, apezar de sua riqueza. Has 
de te letobrar das columnas que ali havia. Eu 
me apoiara a uma d'ellas, esperando que se for- 
massem as quadrilhas. 

A fimbra de um vestido roçou por mim. Emi- 
lia passava pelo braço de mna de suas amig-as; 
passava altiva, desdenhosa, meneando com ges- 
tas soberanos a linda cabeça coroada pelas tran- 
ç.as bastas do ondeado cabello. Fiquei immovel 
entre ella e a oolumna, acompanhando com a 
vista, sem querer^ o g^arboso desenvolvimento d'a- 
quelle passo de sylphide. 

De repente ella descahiu o corpo no movi- 
mento que fazem as senhoras quando sentem pre- 
sa a cauda do vestido. Com essa inclinação as 
ondas da escumilha me envolverão os pés. Ouvi 
o rechino de lençarias que se rasgavam com vio- 
lência. Empallideci 1 . . . Os folhos do elegante ves- 
tido, composto com tanto esmero, rojavão espe- 
daçados pelo chão. 

Emília retrahiu o passo, e abateu uns olhos 
frios para o estrago do trajo mimoso, que tantos 
elogios e onaior inveja excitara. Depois esbel- 
tau-se para dardejar -me sobranceira outro olhar, 
mais frio ainda, que me traspassou. 

— Nem de propósito I . . . 

Ahl Paulo, se tu ouvíraâ a voz com que 

í 44 J 



^ 'í 



Diva 



mie íôrão ditas estas palavras 1 O ferro boto não 
penetra, serrando as carnes, com dòr mais in- 
tensa, do que deixavão essas palavras rasgando -me 
os seios d'alm'al 

Ainda me adiantei exclamando: 

— É wonia. injustiça, minha senhora I . . . 

PiOr toda resposta, ellja curvou -se para co- 
lher as ,orlas espedaçadas do vestido; arrancan- 
do uns fragtaentos que arrastavão ainda, atirou-os 
de si; elles vierão cahir a meus pés, e eu apa- 
nhe i-^os estupidamente. * 

Duvidei de mim um momento. Teria eu in- |^^ 

sensivelmente pisado a fimbria da saia? Mas como, 
se ficara immovel, e nem sequer me voltara? 
Junto de mim não estava outra pessoa; era pois 
ella própria quem, para não roçar -me passando, 
rasg-ára sem querer o seu vestida, e se aproveitara 
do incidente para mortificar -me. 

Podia ©u imaginar que ella tivesse por acinte 
a mim sacrificado deliberadamente sua eleg-ancia 
e os triumphos que lhe promettia o baile, cousas 
que só ao enthusiasmo da primeira paixão sacri- ; 

f icão raras mulheres, as heroinas do amor ? . • 

Tocava a contradansa : dei o braço á Juli- 
■nha. Como já me aborrecia esse baile antes de :• 

começar 1 i 

Não via Emilia; procurava -a nas quadrilhas ".i 

já formadas, quando ella surgiu diante de nós, '^ 

envolta em sua ampla mantilha côr de cinza, 
que lhe occultava todo» o corpo e cingia com' uma 
das pontas o oolloi e parte da cabeça. Estendeu a 
mão á iprima»: 



[45] 



José de Alencar* 

— Adeus ! 

— Que é isso, Mila? 

— Vou tme embora. Nião vê? 

— Ainda o baile nem' CM>meçí)u I 

— Acha você que estou muito decente? disse 
abrindo a manta e mostrando a escumilha es- 
garçada sobre o forro de setim. 

— Que foi isto? Quem a pôz n'esse estado? 

— Quem ? . . . Um pé 1 : . . 

Já viste algTim'a vez, Paulo, amesquinhar 
assim um homem e esmag-al-o com uma palavra? 

Emilia attribuia a mim, o que lhe acontecera; 
e não achava para designar -me, nem o meu nome, 
nem mesmo a minha qualidade de creatura hu- 
mana. Era uma cousa, uma parte desprezivel do 
corpo, um pél , 

Nião sei o que na mhiha indignação ia res- 
ponder-lbe, se ella me desse tempo, e não se 
afastasse rápida. 

— Ma-s isto concerta-se! disse Julinha seguin- 
do-a. Venha cá! 

— Não vale a pena. Adeus. 

Retirou ^e pelo braço do pai, risonha, sem 
a ímenor sombra de contrariedade. 

Durante o resto da noite fui o alvo dos re- 
mioques d;os apaixonados de Emilia; olha vão -me 
com a escarninha commiseração que inspirava 
n'eiles lo !meu desazo. Por outr,o lado, as moças 
parecião agradeceram© € serviço que lhes pres- 
tara com o eclipse da belleza-rainha da noite. 

Uma chegou até a dizer -m^: 

146] 



II ■ iiii — H l « i n i rn i | i| » ll iMlMlliiin » i I I II »L II a»«p»— )Mp|» 



Diva 

— Ande lál O senhor fez de propósito, e 
agiora quer negar 1 

Não lhe dei resposta. 



VI 

ESPEREI com' impaciência ia próxima quinía- 
feira. Estava resolvido a explicar -me com 
Emília. 
Durante o principio da noite, conservei -me 
sentado na varanda; mas via, por um espelho 
fronteiro á porta, D. Leocadia e a sobrinha em 
seu lugar do costume, a um canto do salão. De- 
pois do chá realizou-se o que eu esperava; fi- 
cou vaga uma cadeira entre ambas ; occupei-a 
logo. 

Emilia estremeceu; voltou-se toda para fa- 
lar a outra moça, que lhe ficava á esquerda; 
feenti que sua cadeira se afa.stava da minha por ■ 

um movimento imperceptível. 

— D. Emilia I disse de modo que me atten- 

deese. ' ? 

Ella olhou -me. -■': 

— Desejo fazer-lhe um pedido. []È 
Não me respondeu; mas uma ligeira inflexão ri? 

do rosto parecia indicar -me que se dispunha a *^| 

ouvir. 

— Diga -'me, D. Emilia, se alguma vez in- 
voluntariamente a of fendi, para que lhe sup- 
plique fmeu perdjão? Mas creio antes que tive 



[47] 



Ml 



José de Álencaí 

a infelicidade, e não a culpa, de desa^adar-Ihe... 
Se isto é verdade, farei que a minha presencia 
não a importune maisl 

Levantei ,os olhos para ella. Parecia não me 
ouvir, nem mesmo ter consciência de que eu ali 
estivesse e lhe falasse. Çua alma passava no olhar, 
e ia ao outro lado da sala. Havia em sua phy- 
sionomia e attitude a express^ão pasma que deixa 
a alheiação ou o recolho dos espíritos. 

— iSTão me responde, D. Emilia? insisti ainda. 
Continuou impassível. Estive algum tempo ob- 

servando-a: depois voltei-me para D. Leocadia. 

— A senhora tem notado algnima altera-^iíio na 
saúde de D. Emilia? 

— Não, doutor; porque? perguntou -me assus- 
tada. 

— As 'moléstias graves, como a que ella sof- 
freu, oostumão affectar alguns orgãoe importan- 
tes. Poa- exemplo alg-umas vezes deixão uma sur- 
dez incoinraoda . . . 

— Pois elli, não! Ouve até muito bem! 

— Ah! 'ha pouco me pareceu o contrario! 
Emilia ergueu-se : 

— Também a mim me parecia que o Sr. Dr. 
Amaral era myope; mas agora conheço que en- 
xerga srnuitQ e longe! 

— A senhora ouviu ? . . . Desculpe ! Cuidei que 
estava .distrahida. 

— Enganou-se ainda d'esta vez ! disse-tne, e 
atastou-se. 

Uma das allusões de Emilia, eu tinha com- 
prehendido perfeitamente: ella me qualificava de 

[48) 



lú 



Diva 



myopc ipor não ter percebido logo quanto eu a 
'importunava. Que sentido porém tinhão aquellas 
outras palavras — enxerga imuito e lon-ge! 

Devia ter breve a explicaçião. 

Julinha estava ao piano; conversávamos. 

A voz .d'essa menina tinha nãfa sei que de 
tom e mavioso, que penetrava o coração de sua- 
ves effusivos. Era quasi sempre ella quem me 
applacava as ooleras suscitadas pelos motejos da 
Duarteziníia. 

Esta passeava na sala pelo braço, de um 
mopo de vinte annos, ridículo arremedo de ho- ^ 

mem, que a moda transformara n'um' eleg'ante 
boneco. Emília, na sua fria e incisiva ironia, re- 
tratava-to com um monosyllabo. Ella dizia por 
exemplo : 

— Nós somos um perfeito cavalheiro de sa- 
la, Sr. Barbosinha. Nós trajamos no rigor da 
moda. 

Este nós era o pronome ida fatuidade e effe- 
minação do moço. 

Passando por diante do piano, Emilia sol- 
tou uma risada bem alta e dirigiu-«e a Juli- 
nha: 

— Não lhe parece, prima? 

— O que, Mila? , 

— Eu (dizia aqui ao senhor que a gratidão é 
um' sentimento mesquinho. -;^ 

— Como mesquinho ? Não entendo I -^ 

— D. Emilia quer dizer que não passa de um' 
fingimento; acudiu o Barbosinha. 

— Nós nos enganamos, Sr. Barbosinha I re- 



•i % 



[49] 



José de Alencar 

plicoii Emília sorrindo. Eu digo, prima, que isso 
djC gratidãio não é um sentimento nobre e ele- 
vado; pelo menos eu nunca desejaria inspiral-o 
a alguém! 

— Por que razão, prima ? 

— Pois não, Julinha I Pôde haver nada menos 
•generoso e mais ridiculo do que um individuo, 
porque prestou um serviço, mesmo que salvasse 
a vida a alguém . . . arrogar -se uma certa su- 
perioridade sobre o outro e julgar -se com direito 
a tudo. .. á estim'íi! e á amizade de uma pessoa?... 
Nião é uma espécie de humilhação que se impõe 
áquelles que não pedirão, nem desejavão seus fa- 
vores, e talvez os podião pagar? 

Emilia falava com uma natural volubilidade, 
como se estivera conversando de cousas indiffe- 
rentes. Seu lábio desfolhava, de envolta com as 
palavras, breves e finos sorrisos, que erão como 
os espíritos maus de sua-s palavras. Eu a es- 
cutava de parte, sentindo os dardos do escarneo 
que ella me atirava de revez. De repente vi pas- 
'sar-lhe pelos olhos vivo e súbito lampejo. 

— E alguns ha d 'esses generosos, continuou 
ella., que não perdem occasião de lembrar o be- 
neficio feito, com receio de que o possão esque- 
cer ! Se não é uma infelicidade, parece uma . . . 

Eu vi clarai e distincta a palavra especulaQÍo 
na boca de Emilia; e estava de pé, alheio de 
mim, antes que ella a pronunciasse. Que ia eu 
fazer? Que podia eu, contra o insulto de uma 
^'ulher-; e ali rm meio de uma sala? Nada. Erguê- 
ía-me por esse movimento involuntário e mys- 

[50 1 



rf^ 1 



151J 



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V 1 



'V ' 



Diva 



terioso que nos momentos solemnes ^rlge a os- 
tatura do homem, como a expansão natural de sua 
foTç-ã e fdignidade. Sentados parece que nos curva- 
mos á injuria, e a deixamos pesar sobre nossa 
cabeça; erguidos, como que lhe ficamos sobran- 
ceiros, e a olhamos do alto, e a calcamos aos 
pés! 

Emília vendo-me levantar arrebatado, mediu- 
me com um olhar provocador, soltando com estu- 
dada lentidão a palavra suspensa: 

— Uma especulação I 
Já eu tivera tempo, nãlo de reprimir, mas 

disfaj^r a emoção. Disse-lhe folheando ao acaso í ^ l 

um álbum de musicas : 

— Tem razão, D. Emilia; actualmente com 
tudo se especula, de tudo se zomba. Ganhar muito 
dinheiro para ter o direito de rir dos outros, 
eis a grande questão! . . . 

Havia de certo em meu rosto alguma cousa, 
feymptomas do refrajigimento de uma ahna an- 
gustiada, que assustou Emilia. Ella desviou de 
mim os olhos e esquivou-se timida e sobresaltada. 
Parti immediatalmente da casa de D. Mathilde; 
tinha gelo no coraçião e fogo nas faces. 

A minha resposta ao insulto de Emilia me 
parecia ridicula e parva; outras replica^ mais 
frisajites me acudião, que eu desejava ter po- 
dido lançar ao rosto d'aquella moça. Envergo- :qf 
nhei^me do ridículo papel que fizera. 

— Se ella amasse alguém ! . . . pensava então. 
Euj a insultaria na (pessoa d'elle. 

Decorrêrrão dias; em todos elles meu pri- 



"i 



mmmmmmmmm 



José de Alencar 

meiro pensaanento, abrindo os olhos, era cfessa 
mulher. Forão maus dias esses, que tiverão suas 
manhãs de ódio. Emfim, voltou a calma; o ran- 
cor se occultára no coração, comb a fera no covil, 
para espreitar sua vingança. 

Pois tempo depois, Geraldo, jantando em mi- 
nha casa, disse -me de repente no meio de uma 
conversa: 

— Agora me lembro!... Has de fazer -me um 
favor, Amaral? * 

— Farei podendo. 

— Ma^ olha que é segredo. Se disseres uma 
palavra, está tudo perdido! Mila é capaz de ficar 
mal comigo; e eu antes quero estar mal com meu 
pai, do que com ella. 

— Pelo que vejo tua irmã tem parte n'isto ? 

— O negocio é d'ella. Eu te conto. A se- 
nhora minha irmã tem a mania de dar esmolas. 

— Ah! Nião sabia! 

— Pois fica sabendo ; mas cuidado ! . . . Não 
dês o menor signal de que eu te disse seme- 
lhante cousa! 

— Que interesse tenho eu em te compromet- 
ter? Podes estar descansado. Mas então, D. Emí- 
lia é tão caratativa assim? Em uma moça, admira! 

— Oh! nem tu fazes idéa! Ella tem uma por- 
ção de velhas, suas protegidas, que não lhe sahem 
da porta. E não contentes já de pedirem para 
si, pedem também para os outros. Desde criança 
que Mila se acostumou, quando meu pai volta, 
da cidade, a tirar -lhe todo o dinheiro que elle 
traz solto na algibeira; e meu pai deixa de pro- 

Í52J 



■ffpn 



Diva 



posico uma porção de moedinhas de prata, além 
do que lhe dá sempre que elia pede. Pois quasi 
todo esse dinheiro é filado pelas taes velhas. 
Geraldo suspirou : 

— Que dinheiro tão mal g-asto! Podia-me ser- 
vir a<o menos para charutos 1 

— Mas que relação tem isso com o teu pedido ? 

— É verdade! Uma das taes velhas desco- 
briu, lOu inventou, o que é mais certo, a historia 
de um.a menina que perdeu pai e mãi, e está na 
miséria, sem parentes que olhem por ella. E 
de que havia de lembrar -se? De mettêl-a no re- 
colhimento das orphãs I >. 

— Foi uma boa lembrança. ^ 

— Achas que sim? Melhor, porque és tu : 
quem ha de arranjar isto. 

— Como? Tua irmiã? . . . 

— Ella aprovou muito a idéa, e incumbiu- 
me de obter a admissão da menina, com um dote, 
que ideve receber quando se casar. Vê que extra- 
va,gancia! Eu tenho lá tempo para cuidar d'essa3 
cousas? Mas não ha remédio senão fazer-lhe a 
vontade. Ha muitos dias que estou para te falar 
n'isso, e felizmente agora lembrou-me ... Tu an- ; 
das lá pela Misericórdia, conheces aquella gente... 

Tive. uma inspiração. _ : 

— Pois bem, Geraldo. Fica ao meu cuidado. 

— Promettes então arranjar o negocio ? ^\ 

— Dou -te a minha palavra; e quasi te posso | 
assegui'ar que é cousa feita. 

— Muito bem; mas que seja logol Mila não me 
deixa, e eu nã;o sei já que desculpas inventei 



153] 



José de Aleilcaf 

— Amanhã mesmo tratarei (i'isso. Como sô 
chama a menina? 

— Homem! Se queres que te dig-a, não sei. 
Mila deu-me um papel, que eu nem abri. Deve 
estar no bolso do meu redingofce. 

— Pois isso é indispensável, assim como a 
idade, filiação . . . 

— Eu vou para a casa., e te mando o papel 
hcje mesmo. 

Esperei até á noite com febril impaciência. 
Geraldo não cumpriu a promessa; mas no dia 
seguinte por volta de uma hora elle appareceu. 

— Aqui tens! disse-me tirando da carteira a 
nota. E adeus. 

— Onde vai.s já ? Não queres jantar ? 

— Hoje não. Vou jantar ao Jardim; temos 
lá esta noite um pagodesinho soffrivel. 

Ao descer a escada voltou-se: 

— Sim! Eu prometti a Mila que o negocio 
nãçi passaria d'esta semana. Vê se me deixas ficar 
mal! 

— Vai descansado; respondi-lhe sorrindo. 
Reli a nota que Geraldo me havia dado. Era 

uma meia folha de pequeno velino, onde a mão 
de Emilia traçara algumas linhas com elegante 
e fina escritura. Conservei este papel por muito 
tempo; creio quei o queimei sem querer de envolta 
com outros. Nem já me lembra o nome da menina, 
que teve, sem- o saber, uma influencia rápida, mas 
decisiva jia minha vida. , 

Uma carta, da mulher que eu amasse talvez 
não produzisse em' mim' a emoção que senti lendo 

154) 



bívà 



ãqueilas palavras. Sorria de contentamento, e ama, 
vez Inachuquei o papel aos lábios. Cuidei então 
que afagava a minha vingança; mas quanto me 
eng^ajiei! Sorvia o filtro dos ódios fugaces de umi 
amor espesinhadol 

— Ah! Ella é boa e compassiva! murmurava 
eu. EiStou vingado! . . . 

Até então, Paulo, cuidava que um egoísmo 
frio forrasse a alma d'esta menina; e tinha medo, 
porque todo o desprezo, que eu pudesse amassar em 
meu ooraçião para affrontal-a, iria bater e pul- 
verisar-se n'essa crosta impenetrável. 

Recolhi um instante em mim para reflectir. 
Concertado meu plano, a execuç.ão foi immediata. 
Tudo toe favorecia: era um sabbado, dia em que 
o Sr. Duarte se recolhia mais cedo; por outro 
lado, o pasaeio de Geraldo me assegurava da sua 
ausência. 

Cheguei á casa do negociante com as primei- 
ras sombras da noite. 



VII 



A CASA do Sr. Duarte acabava de soffrer 
uma transformaçjão completa. 
Quandio eu a opnheci;, e (mesmo ainda de- 
pois de minha volta, era um velho prédio, feio 
'e irregular, construído n'uma das abas da mon- 



^. U 






(55] 



José de Alencar 

tanha que cinge .os amenos valles de Catumty 
e Rio Cotoiprido. A chácara coberta de arvoredo 
estendia-se pelas encostas até as pittorescas emi- 
nências de Santa Thereza. 

Gozava-se aJii de uma vista magnifica, de 
tons ares e sombras deliciosas. O arrabalde era 
n'aquelle ítempo mais campo do que é hoje. Ainda 
a fouce exterminadora da civilisação não esmou- 
tára |06 bosques que revestião os flancos da mon- 
tanha. A rua, esse braça mil do centauro cidade, 
só .annos depois espreguiçando pelas encostas, fis- 
giou as g-arras nos cimos frondosos das coUinas. 
^llas forão outr'ora, essas lindas collinas, a verde 
oorôa da jovem Guanabara, hoje velha regateira, 
calva de suas mantas, núa de seus prados. 

Caminhos Íngremes e sinuosas veredas ser- 
pejavão então pelas faldas sombrias da monta- 
nha, e prendião como n'um abraço as raras habi- 
tações que alvejavão de longe em longe entre o 
aTvoredo. Límpidas correntes, que a sede febril 
do gigante urbano ainda não estancara, rolavâo 
trepidas pela escarpa, saltav,ã,o de cascata em cas- 
ca^ta,, e iãio fugindo^ e garrulando conchegar -se nas 
alvas bacias debruadas de relva. 

As paineiras em flor meneavão á doce brisa 
da tarde os brilhantes pennachos, como n'uma 
festa da roça as mais bellas raparigas, sober- 
bas de seus enfeites, balanção airosas ao som 
da taiusica as frontes toucadas de nastros de fi- 
tas. 

Crescião ali bosques espessos de bambus que 
ciciavão brandamente, jemquanto os leques das 

156] 



Diva 

I 

palmeiras vibrados pelo vento arpejavão cbmo 
frauta rústica. 

N'aquelles lug-ares nascera Emília e se criara. 
Elles forão o molde de sua alma, formada ao 
contacto d'eissa alpestre natureza cheia de fra- 
gosidades e umbrosas espessuras. 

A primeira vez que a timida menina ousou 
penetrar esse mato esquecido ás abas da cidade, 
tinha ella íonze annos. Até então vivera á sombra 
materna, como flor que se planta em vaso de 
porcellana e vegeta nos terraços. Do collo pas- 
sara ao reg^aço; quando principiou a andar coseu-se 
á Talda do vestido de sua mãi. 

Com os hábitos sedentários que tinha a se- 
nhora, a orbita do seu giro não se estendia além 
da beira da casa. e do estreito jardim, que uma 
cerca de tábuas separava da chácara inculta e 
abandonada; porém mesmo de longe, Emilia enfiava 
ois olhos por entre os g-rupos de arvores. 

Vinhão d'ali rumores vag"OS e estranhos mys- 
terios que a estremecião. Logo presa de grajide 
pavor, fugia a abrigar -se no collo materno. 

Um dia venceu a tentaçiáo. A menina avan- 
çou afouta, cuidando encontrar perto a professora. 
Niãoi a viu; quiz retroceder e não teve animo; tor- 
nou a avançar; o menor ruido a assustava, a 
mais leve sombra lhe incutia terrores e vertigens. 
Até que succumbiu n'um ataque de nervos, 

Emilia esteve dois dias de cama. A mãi de- 
clarou-a doente por uma semana. Houve larga 
discussão a respeito do grave acontecimento; um 
mez durante nãoi se falou de outra cousa. Julinha 

I 57 J 



José de Álenôaí 

foi lestar algum tempo cotn' a prima para distra- 
hil-a; e a medrosa menina se viu cercada dos 
maiores desvelos. 

Tudo isto produziu effeito opposto ao que 
esperava a mãi. Quidava ella conservar assim 
aquella natureza frágil, timida e melindrosa, que 
só podia viver elada ao seio materno, como hera 
ao tronco. Que bem sabia do gérmen funesto 
que lançara na alma tenra da filhai 

Foi a semente da primeira retellião. Epiilia 
teve grande vergonha de seu pânico. Um sentir 
novo e estranho, que não era desejo, nem raiva, 
pezar ,ou contentamento, porém um mixto de tudo 
Isso, a entumecer-lhe a alma; um sentir nunca 
sentido turbou a innocencia da menina. 

Muita vez a sós as faces lhe ardião, o san- 
gue fervia dentro, as lagrimas saltavão dos 
olhos; súbito erguia-se, cora' o talhe erecto, a ca- 
beça desaffrontada, o olhar acceso, e um sorriso 
— que sorriso! — mordido no lábio túrgido. Er- 
guia-se para bater com o pé no chão e desafiar 
do gesto uma visão de sua phantasia. 

A teima infantil, que devia ser orgulho na 
mulher, estava-se gerando n'aquelle coração de 
menina. 

Uma noite, ao deitar, Emilia jurou que ar- 
rostaria tudo para atravessar ella só a alameda 
da chácara. Seu dito, seu feito, e logo feito. Os 
primeiros albores do dia a acharão já pronta. 
Á excepção de alguns escravos, todos dormião na 
casa. 
s Esgueirou-se furtivamente pelas escadas e ga- 

. [58] 



•mÊmmmmimm^mmmmimf mi j^ i 



In 



Diva 



nhou a cerca. Da cancella até o fim da ala- 
meda foi uma corrida só e de olhos fechados. 
Lá parou, tomou fôlego e correu a vista espa- 
vorida pelas densas e escuras ramadas. Dispa- 
rou nova corrida, mas já senhora de si. Assim 
percorreu duas ou três vezes a alameda. Quando 
o sol nasceu, entrava ella sem ter sido presen- 
tida, e mettia-se na cama, onde sua mãi com 
pouco a foi despertar. 

N'esse dia Emitia esteve de uma alegria que 
não 'mostrara recebendo a mais enfeit-ada de suas 
bonecas. Saltava de contente; a ponta de seu pé 
calcava jniais firme o chião como se o quizcra re- 
pellir, tanto o passo era firme e altivo. A luz 
filtrava mais viva na pupilla negra; a mão tinha 
taes Ímpetos nervosos que partia as pennas escre- 
vendo, e amarrotava a costura. 

— Foi essa a tminha primeira travessura, me 
dizia ella depois contando a^ suas recordações 
de infância. D'ahi em diante a minha afouteza 
foi em progresso. Um anno depois o mato já 
não tinha segredos para mim; eu conhecia todos 
os trilhos e veredas, satia onde estava a melhor 
goiateira,, o cajueiro mais doce e o coco de indaiá, "^ 
dfi que eu era muito gulosa I Eu mesma ... O -t^ 
senhor acredita?... trepava nas arvores, pendu- :• 
rava-me aos ramos, e saltava pelas ladeiras as -; 
mais Íngremes. ^ 

— E 6ua mãi consentia n'Lsso? pergimtava- 
Ihe eu, 

— Nião consentia, nãol Pobre mãi! Nunca ella 
O 60ube. Eu aproveitava as horas de estudo em 



I 



159] 



José de Alencar 

que 'me deixa vão só. A sala dava para o jardim; 
n'uma volta ou n'outra eu ganhava a chácara, 
sem que me vissem: Demais, sonsa como era en- 
tão, ninguém em casa podia desconfiar das minhas 
travessuras. Diante de g^ente tinha tal acanha- 
mento que até já aborrecia. Minha mestra cha- 
mava a isso com muita graça a minha ferocidade 
caseira ! . .. 

Fora assim, Paulo, que se formara essa na- 
tureza timida ao mesmo tempo que audaz. Havia 
n'ella a transfusão de duas almas, uma alma de 
criança e outra alma de heroina. Só, em face da 
natureza, a agreste poesia d'aquelles ermos com- 
municava com seu espirito e o enchia de arrojos 
admiráveis. Em presença de alguém a vida sol- 
dava-se no intimo como n'um envolucro impene- 
trável; restava apenas na superfície uma sensibi- 
lidade irritável. ■ 

Com a idade essa menina assumira a pouco 
e pouco o governo despótico da casa e da familia. 
Desde |0 pai até o ultimo dos escravos todos 
lhe lObedecião cegamente. Ella recebia com genti- 
leza de moça, o digTiidade de senhora a homenagem 
devida á superioridade do seu espirito. 

Um dia, Emilia, que já começara a frequen- 
tar a sociedade, sorprendeu sua alma triste e 
desconsolada no meio d'aquella velha habitação; 
pareceu- lhe isso um degredo dos ricos salões onde 
algumas noites se expandia a sua belleza. 

Disse então uma palavra. De repente o feio 
edifício surgiu das ruinas maior e sumptuoso, en- 
tre jardins, mármores e repuxos; foi coberto de 

I60I 



Diva 

vasos, pinturas e tapeçarias; encheu -se de ricas 
miobilias; teve grande trem, numerosa criadagem 
e serviçto magnifico á européa. 

Um .dos novos criados, que não me conhecia, 
levái-a meu cartão de visita. Esperando, eu ob- 
servava pelas janellas, á luz frouxa das estrellas, 
os taboleiros de relva e os alvos passeios que 
se i'ecortavão na areia da chácara. Nada sabendo 
ainda, sentia em tudo quanto me cercava o tacto 
delicado das mãos de Emilia. 

Ouvi perto de mim a voz do Sr. Duarte. 

— Bem apparecido, doutor, n'esta sua casa I 
Cuidei que estava mal com ellal 

O negociante conduziu -me, através de gran- 
des salas, que estavão acabando de decorar, a uma 
saleta do lado opposto do edificio. 

D. Leocadia cosia junto á meza; Emilia es- 
tava ao piano; mas vendo-me entrar, levantou-se, 
correspondeu com a costumada frieza ao meu 
comprimento, e foi recostar -se á sacada. 



VIII 



I: 'a I 
-4 



'M 



PASSEI alguns instantes a conversar com v. 
Leocadia junto á meza. O negociante sen 
tára-se n'uma cadeira de palha á porta do *3| 

terraço, onde regularmente todas as noites fumava 
seu charuto. 

— Sr. Duarte! disse eu alteando a voz. 

{ 61 ] 



José de Alencar 

— Doutor I 

— O senhor está lemtiraxio do que se pas- 
sou entre nós ha três annos, logo depois do res- 
tabelecimento de D. Emilia? 

— A que respeito ? . . . 

— A respeito da maneira generosa por que 
o senhor quiz recompensar os pequenos servi- 
ços que eu . . . 

— Ah ! lembro-me I 

— Pequenos serviços, doutor I acudiu D. Leo- 
cadia. Um irmão não faria poi- sua irmã o que 
o senhor fez por Mila. 

— Fiz lO meu dever, minha senhora, e nada 
mais; um simples dever de medico I 

— Não 1 O senhor pôde pensar como quizer ; 
mas eu sei que lhe devo a vida de minha filha, 
doutor. Se não fosse o senhor . . . 

— Que passou vinte e tantos dias, quasi sem 
dormir, não pensando em outra cousa . . . Cuida 
que eu não vi o seu desespero quando Mila peio- 
rou ? E até uma vez . . . 

— Perdão, D. Leocadia! disse eu muito con- 
trariado. A senhora comprehende que não vim 
lembrar o que se passou ha tanto tempo para 
provocar elogios, que não mereço, e que, desculpo, 
me desagradão sempre. 

— Ê tal e qual : sobre isto não é capaz de 
ceder. Ct^ião o contrarie, mana. 

— Está bem, doutor, não se zangue; já mt 
calo; respondeu a senhora com bondade. 

— Repito, continuei, não fiz toais do que a 
minha obrigação: e quando recusei a recompensa 

1-62 J 



scri 



"T ■< 



Diva 



generosa que o Sr. Duarte me offereceu, tive para 
isso uma razão. Não sei se lhe disse? 

— Creio que sim; ma« não me recordo bem. 

— Recusei por interesse . . . 

— Ora, doutor 1 . . . murmurou timidamente a 
tia de Emilia. 

— É verdade, D. Leocadia, por interesse e am- 
bição! Também tenho as minhas superstições! 
Acreditava, e ainda acredito, que a minha pri- 
meira cura me devia dar felicidade, se eu a vo- 
tasse como pia offerenda á sciencia e á humani- 
dade. E não me enganei ! . . . Foi sua amizade, Sr. I ! 
Duartq, e a maneira por que recommendou o meu 
nome aos seus amigos, que me fizerão conhe- 
cido e chamado. 

— Diga o seu talento ; isto, sim, é que o fez 
conhecido e ha de tornal-o um dos primeiros mé- 
dicos do Rio de Janeiro. 

— Não tenho taes pretenções. Já vê pois, 
D. Leocadia, que meu desinteresse não pascsou de 
uma pequena especulação feita sobre a amizade 
e gratidão de sua familia! 

Durante esta conversa eu não deixara de ob- 
servar Emilia. Ella estava ainda na janella; a 
principio fez um movimento para voltar -se, que 
logo reprimi! ; depiois pendera a fronte na mão 
e iconservára-se imtaovel. "i 

As minhas ultimas palavras a arrancarão brus- 
camente a essa attitude pensativa; atravessou a 
sala e veiu sentar -se no sofá, defronte de mim. 
Toda ella era desdém e altivez. Nós cruzámos 



^ 



[63 1 



José de Alencar 

ura ,olhar, como dois adversários cruzão o ferro, 
começando o combate. 

— O doutor está gracejando 1 disse-me D. Leo- 
càdia 

— Demais, eu não fui tão desinteressado como 
parecia, porque . . . Deve recordar-se, Sr. Duar- 
te .. . Recusando n'aquella occasião prometti-lhe 
comtudo que se alguma vez me achasse em em- 
baraços, não recorreria a nenhuma lOutra pes- 
soa. .. 

— í; exacto! O senhor deu-me a sua pala- 
vra . . . Mas infelizmente ainda não chegou essa 
occasião, e receio que nunca chegue. 

— Pois chegou ! disse eu corando mau grado 
meu.. 

Não obstante a punição que eu ia infligir 
a essa moça, e a zombaria da minha simulada 
cupidez, não me pude eximir ao vexame de pa- 
recer utn instante dominado por mesquinho in- 
teresse pecuniário em face de pessoas que me 
estimavão. Mas o prazer da vingança me arras- 
tava. 

— Seriamente, doutor? exclamou Duarte. Não 
sabe quanto isso me alegra. Disponha franca- 
mente de mim. Quanto precisa? 

— Fale; acudiu D. Leocadia; não se acanhe. 
Mano José deseja sinceramente mostrar-lhe sua 
amizade. 

Emilia íne fizera justiça; depois do que se ha- 
via passado entre nós, eUa sentia que eu era 
homem a morrer na miséria antes de estender 
a mão ao dinheiro do pai. Seu olhar fito em 

[64J 



mim 



Diva 



mim parecia querer arrancar-me do fundo da 
consciência a minha intenção occulta. 

— Interesso -me, dizia eu, por uma criança 
desvalida que perdeu os pais . . . Espero obter a 
sua entrada no recolhimento das orphãs, e dese- 
java n'essa mesma occasião fazer-lhe um pequeno 
dote . . . 

— Muito bem, doutor! exclamou D. Leoca- 
dia. Não pôde haver dinheiro mais bem empre- 
gado! 

— E eu tenho o maior prazer em concorrer 
para tão bella acção 1 De quanto será o dote que 
nós lhe devemos fazer? 

— Com licença, Sr. Duarte! Eu protesto con- 
tra esse 77Ós: o dote ha de sor dado por mim 
só ; quero ter o egoismo d'essa boa acção, a pri- 
meira e talvez a única de minha vida. 

— Que teimoso que elle é! observou D. Leo- 
cadia rindo-se. 

— Meu egoismo, porém, não deve prejudicar 
a minha protegida, privando-a da caridade de uma 
familia que tantos beneficies lhe pôde fazer. Por 
isso dçsejo que também a conheção . . . 

Tirei da carteira a lembrança dada a Geraldo 
pela irmã. 

Emilia, que mudara de cores desde que eu fa- 
lei da menina, fez um gesto, como se ao primeiro 
impulso se quizesse precipitar para me arrebatar .^ 

das mãos o papel que eu lia. Mas em vez d'esse 
movimento o talhe descahiu, como um corpo a 
que desmaia a vida; a sua altivez succumbia ven- 
cida, i 



"n 



[65] 



'osé de Alencar 

— D'este modo, Sr. Duarte, eu persisto amda 
na minha primeira idéa ... na minha superstição. 
Especulo ainda! A minha primeira cura sorá sem- 
pre o melhor momento da minha vida; cora o preço 
d'ella poderei remir da desgraça a uma pobre 
.creatura! Ao mesmo tempo livro-o da violência 
que fiz á sua g-enerosidade, recusando outrora 
o pagamento dos meus serviços. 

D'estas palavras, aquellas que tinhão uma 
significação pecuniária, minha voz as pronun- 
ciava com tal aspereza, que parecia querer dar 
lhes ;0 tinido metallico de moedas. 

— Aqui tem a minha conta; conclui. 
Emilia estremeceu. 

— Que é isso, doutor? exclamou o negoci- 
ante, resentido. Cem mil réis?... 

— Polo tratamento de Emilia? acudiu D. Leo 
cadia. 

— Acha que é muito? 

— Ora, o senhor está zombando comnosco! 
Pois havemos de lhe dar somente essa ridicula 
quantia pelo trabalho immcnso que teve . . . 

v-(> — Que trabalho! Umas vinte visitas, que para 
'um medico principiante são generosamente pagas 
a .cinco mil réis ! 

— O que é que você chama visitas, doutor? 
Passar as noites em claro . . . 

— Olhe lá, D. Leocadia. Eu me agasto com a 
senhora 1 

— Decididamente, Dr. Amaral, não lhe pago 
esta conta. Se quizer accrescentar uma cifra, beml 

— Neste caso ficarem, os como d 'antes. 



f íí 



66 i 



mmm 



Diva 



— Mas escute, doutor . . . 

— O 'melhor é não falarmos mais disso ! ata- 
lhei eu. 

Emi'i:i. erg-uou-se arrebata-damentc. 

— Papai, dá-me essa conta! disse ella. 

Sua mão trcinia segurando o papei, que ella 
devorou com a vista, de pá junto á meza. Tu 
adivinha.s, Paulo, o senLiraento e a intcnçião com 
Quo escrevera eu essa conta: seu ncme, sua pes- 



7' Al. 



moça 



sua, sua viaa, po.vio (nzei-c, sua viaa de 
tella, rica e adorada, ali estava cotada no mes- 
quinhe algarismo ! Eu lhe dava plena quitaçião 
do seu reconhecimento! 

Ella esteve muito tempo a ler; depois as 
róseas pálpebras, franjadas de longos cilios, des- 
vendarão 06 olhos, que ella pôz em mim, hú- 
midos da ténue marugem de uiria lagrima esta- 
lada. 

— Sou eu que devo pegar-lhe! disse me, vi- 
brando a voz. 

E ao mesmo tempo o papel voou em pedaços 
&otre a meza. 

— Aíila!... murmurou D. Leoca^dia. 
Emilia atravessou o salão e desappareceu. 

— Ella tem rasião! disse o pai erguendo-se. 
Entre nós, doutor, não ha necessidade de con- 
tas, nem de recibos. Vou dar -lhe . . . 

— O que, Sr. Duarte ? 

— O menos que é possivel . . . as seis cifras. 

— É escusado! Já disse... falemos de outra 
couL^a. 

Esta scena, que eu acabava de representar, 



1 

~4 



1 ^' i 



José de Alencar 

me fatigara horrivelmente. Mudei de conversa. 
Veiíi o chá, e Mila não voltou á sala. Retirei-me 
triste. 

No dia seguinte mandei um procurador re- 
ceber ão Sr. Duarte com uma ordem minha os 
cem mil réis. lísse sujeito ia prevenido; disse 
ao negoci:inte que para evitar demoras adiantara 
aquelie dinheiro no recolhimento, de modo que 
trfttava-se de um reeraholso. O pai de Emilia foi 
clrigado a ceder. 

Tive n'esse dia alegrias pueris. Como uma 
criança. .. E eu o era entlo; homem para a razão 
sim, mas crimiça ainda para a paixão que não 
me tinha encanecido a alma!... Ria -me só, en- 
chia a imaginaÇião das idóas mais extravagan- 
tes. . . Não te revoltes, Paulo! Já te confessei: 
essa mulher, que devia envelhecer -me o coraçã^o, 
começava fazendo -me menino. 

Desde então percebi em mim um desejo novo, 
um deseja vivo e ardente de ver Emilia. Não po- 
dia voltar á casa de seu pai, que eu visitiava 
de Longe em longe, sem mostrar afan que não 
devia. Esperava encontral-a em Matacavallos ; mas 
n'essa quinta -feira deixou de ir á partida de D. 
Mathilde. 

A menina entrara para o recolhimento; eu 
cumprira a promessa feita a Geraldo como se nada 
houvera passado; disse -me elle que a irmã não 
lhe fizera a menor observa^ção ; ma^ ella soube 
pela velha que eu tinha accrescentadio, sempre 
em seu nome, o dote da sua protegida. 

Fazia justamente «ma semana que eu tinha 

Í68] 



■•«M 



Diva 



ido ao Rio Comprido; muito cedo ainda, ás sete 
horas da manhã, recebi um bilhete de D. Leoca- 
dia. 

Dizia -me ella: 

«Nós o esperamos hoje para jantar. Não lhe 
digo o motivo d'este convite de propósito, para 
'que a curiosidade de saber o obrig^ue a vir sem' 
falta e 'm'ais cedo.» 

A letra era de Emilia. 

Eu tremi I É verdade, Paulo! Não conhecia 
ainda o caracter d'essa menina; mas sabia já 
que .ousadias tinha seu orgulho de mulher for- 
miosa, habituada a ver o munclo applaudir-lhe to- 
dos os caprichos. 

Que nova humilhação me reservava ella! 



IX 

ADMIREI-Aílí, chegando, da ausência de con- 
vidados, e especialmente da familia de D. ■ 
Mathilde. 
— Parece que não esperão ninguém mais; res- 
plendeu -"me o criado. O senhor mesmo janta na ■ -^i 
cidade. . * 
Entretanto a casa, cujos reparos havião com- ='. 
pletamente terminado, estava preparada como para íA 
grande recepção: notava -se em toda ella o ar de qf 
festa que expande a physionomia dos edifícios , : 
como a das pessoas, porque os edifícios inspirão 
a almk d'aquelles que os habitão. 



[69] 



José de A encar 

D. Lcocadia veiu receber-me. 

— Já sei que está muiíx> curioso de saber o 
motivo d'este jantar? 

— Creio que, apezar de não ser dos mais 
atilados, já o adivinhei! 

— Deveras I Vamos a ver! 

— É mais uma prova da sua bondade para 
comigo, e de seus repetidos obséquios . . . 

— Pois não acertou 1 Pretendiam os, logo que 
se acabassem as obras da casa, reunir aqui bodas 
as pessoas da nossa amizade; porém m.ano José 
não entende d'est::'S cousas, Geraldo é uma cri- 
ança . . . E nós queriamos saber a opinião de uma 
pessoa de gosto . . . Talvez note alguma cousa que 
não pare^ça bem ! 

Era um pretexta. D. Leocadia repetia a li- 
ção que recebera da sobrinha. O império dessa 
menina era tal, que não impunha unicamente obe- 
diência ás pessoas que a cercavão; obrigava-as 
a se identificarem' com a sua vontade, annulian- 
d;0-se. 

Emilia appareceu. Na simplicidade extrema 
de seu trajo ella parecia apenas vestida, tal era 
o realce de sua belleza nativa, e a sobriedade 
dos enfeites; entretanto nunca roupas de virgem 
forão assim avaras de encantas. A belleza não 
se mostrava, transparecia. 

Ella vinha, como sempre, coroada pela re- 
gia altivez, que era o gesto de sua formosura; 
porém Ti'esse dia perpassava-lhe na fronte de or- 
dinário tão limpida uma ténue sombra, de uma 
mágua talvez. 

í 70 ] 



"wmmWMMMMMMIMHiHHPaHIVW^ 



Í71 J 



^ .t 



Diva 



Cortejou -me, não fria, mas séria; foi até a 
janella, e veiu depois sentar -se ao piano. Em- 
quantct eu continuava a conversar com D. Leoca- 
dia, suas mãos conião lentamente pelo teclado, 
que exhalava uns arpejos frouxos e dolentes. 

D. Leocadia sahíra um instante. 

O piano calou-se emfim. Eu vi Emilia de pé 
no meio da sala, hesitando no passo que a de- 
via aproximar de mim : 

— Perdôe-m.el disse-me ella. 
E a voz com que o disse tinha modulações 

sublimes. 

— Sei agora quanto o offendi I ís^ão sabia en- 
tão quanto lhe devo! Minha tia contou-me . . . 

— A senhora nada me deve, D. Emilia. Estou 
pag-o! Já recebi o meu salário. Foi o preço de 
uiY-ti gratidão que tudo a incommodava! 

— Não me dig-a isso ! Seia sempre generoso ! 

— Quem deve sou eu. Um doente rico tem 
á sua disposição todos os médicos e os melhores; 
mato para um medico principiante e desconhe- 
cido, um doente que paga bem, é imia fortuna! 

— ■' Eu 'mereci estas palavras, pciTiue fui má 
e injusta... Fui até sem delicadeza!... Mas se 
lhe confessasse... teria pena de mim! ;■! 

— Confessar -me o que, D. Emilia? perguntei 
commovido. 

A tia voltava. 

— Logo 1 . . . 
Ella articulou essa palavra, já calma e sem 

o menor vexame, com a voz tão clara, que D. 
Leocadia devia ter ouvido. 



I 



-™(Ba«»-»=~"— . V 



José de Alencar 

Eu ia de mysterio em mysterio. Que signifi- 
ca va a estranha confidencia de Emília? Que expri- 
mia aquelle mixto de 'franqueza e reserva, de pla- 
cidez e emoção? 

Depoií! de jantar fomos correr a chácara. 

A ama.hilida-de, ainda cerimoniosa, mas doce, 
com ique Emilia me tratava, foi tão sensível, que 
D. Leocadia a notou, apezar da sua constante 
tonhomia. 

— Ali! Já fizerão "^a-s pazes? disse -nos a se- 
nhora. Muito bem! 

— Nunca estivemos m.al, minha tia. Não nos 
conheciamos ; não é ^ erdade ? replicou Emilia vol- 
tando-se para mim. 

A maliciosa e gentil menina, que dirigia o 
passeio, andava de propósito com extrema rapi- 
dez para fatigar a tia: afinal o conseguiu. 

— Não i>osso mais! Estou muito cansada! mur- 
murou D. Leocadia, deixando-se cahir n'um banco 
de pedra. 

Estávamos junto de uma cascatinha, onde ti- 
nhão arranjado uma gruta, um pequeno lago e 
outras embellezamentos. 

— Venha ver a cascata! me disse Emilia. 

Aoompanhei-a até a margem do tanque; fi- 
cávamos alguns passos apenas de D. Leocadia, 
porém o rumor das aguas que latião entre as 
rochas abafava nossas palavras. Emilia esteve a 
trincar, com umas flores aquáticas que vegetavão 
naá fendas, saltando de pedra em pedra. Eu vi-a 
oscillar sobre uma ponta de rochedo coberto de 
musgos e batido pelas aguas. 

[72 1 



Diva 



De repente voltou-se: 

— O senhor me julga muito ingrata ? 

— Eu, D. Emilia? 

— Oh I N,áo negue ! eu sinto ! . . . Pois enga- 
nou-se I O que eu sou . . . Talvez não lhe saiba 
dizer . . . 

EUa abaixou os olhos para os borbotões de 
espum'a que se esfroíavião a seus pés. 

— Sou . . . um espirito que duvida, um cora- 
ção que vacilla! , 

Eu não comprehendia ; estava sorpreso. 

— Esta gi^atidião que eu lhe consagro ha três 
annos, continuou ella, tem sido a minha única 
alegria! 

— Como é possível, D. Emilia? Não acre- 
dito ! . . . 

— Pois creia! Tenho uma testemunha... 

— Qual ? 

— Conhece ? 

— A minha carta ! . . . 

Ella passara rápida pelos meus olhos a car- 
ta que eu tinha escrito ao pai logo depois do 
seu restabelecimento. 

— Está assim amarrotada . , . Não sabe por- 
que? É ella que envolve os cabellos de minha mãi! 

Emmudecêmos ambos. O papel desappareceu 
outra vez; tinha-o escondido no seio. Passado um 
instante Emilia falou de novo, mas absorta, como 
se falara coansigo mestno n'uin recolho intimo: 

— Não acredito no amor ! . . . Alguma cousa 
me diz que não amarei nunca ! . . Entretanto o 



173 1 



José de Alencar 

coraçáo sente . . . tem necessidade de uma af feição 
ci-eada por elle só, e que não venha do sangue. 
Ha uma porção d 'alma que pertence á família e 
vive n'ella, como as raizes d'esta planta, no seio 
da terra que a produz . . . Mas a outra porçíLo, 
essa é nossa unicamente e também precisa de 
sentir e viver I Não é assim? 

— Deus quiz que fosse assim, para que a 
humanidade existisse. 

— Deus quiz . . . Mas porque me pôz elle n'al- 
m.a esta duvida cruel?... Tenho dezesete annos, 
c já me sinto orphan das rainha-s esperançj?^! 

— A senhora, D. Emilia? Que lhe falta? Es- 
pirito, formosura e riqueza, tudo que o mundo 
admira. .. 

— Eu quizera não ser admirada, m.as . . . 
Elle hesitou e reprimiu a palavi^a que ia 

pronunciar. 

— Não falemos n'isso. Já lhe disse que não 
acredito cm paixões. Durante o anno que passou, 
esperdicei por ahi, por essas reuniões, meus so- 
nhos, 'minhas alegrias, minha almal Sabe o que 
eu trazia? A desillusão ! . . . Quando entrava em 
mim. não achava senão uma lembrança doce e 
pura . . . Era a minha boa gratidão, o reconheci- 
mento que eu lhe votava ... E não sabia tudo 
ainda . . . Não tinha ainda aqui como agora suas 
lagrimas ! . . . 

— Obrigado, D. Emilia 1 

— Oh! Não me agradeça!... Escute-mel Essa 
gratidão, esse sentimento bom e puro, era uma 
oousa minha, occulta e desconhecida, que eu de- 

[74] 



Diva 



dicava nv silencio de minha almia á Bua memoria . . . 
porém não ao senhor! 

— Ahl 

— Do senhor, eu tinha medo, quando o via. 
Tinha medo que me arrancasse tamhem do es- 
pirito mais essa doce illusão. Desculpe-me: eu 
não o conhecia então. líu vidava . . . 

— Mas por que motivo ? Percebeu alguma vez 
em mim a menor intenção de abusar ? . . . 

— Nunca I . . . Era uma cousa que não estava 
em mim'l Um temor vago e indefinivel . . . Pare- 
ciame que o hálito de sua primeira palavra vi- 
nha imurchar em minha alma a única flor de sen- 
tim.ento que brotara n'clla ... E eu defendia-me 
afastando-o . . . JSfaquella noile . . . não o entendi . . . 
Disse aquellas más palavras . . . PerdOe-me ! Eu 
também soffri . . . Soffri mais porque ellas nSo 
erão vingança, não. Gemidos, sim, de quem tanto 
perdia! . . . 

Fui eu então, eu insultado e escarnecido, que 
pedi a essa mulher o perdão de minha vingança. 

A tarde cahia. A solidão começava a encher- 
se de sombras, de perfumes, de eloquentes sihm- 
cios. Emiiia -sorveu com delicias esse respiro dos 
campos na hora do crepúsculo. 

— Que linda tarde I . . . murmurou. Aqui . . . pa- 
rece-me que eu poderia crer... Mas lá!... 

Seu lábio desfolhou um triste sorriso. 

— Vamos, Mila! disse D. Leocadia. 

— Sim, minha tia. 

Ella estendeu- me entre as rendas de seu len- 
ço a ponta/dôKd^os que eu apertei de leve. 






[75 1 



José de Alencar 

— Seja meu amigo! 

E desceu como um sylpho^ voando sobre as 
pedras da cascata. 



X 



TODA a noite tive deslumbramentos n'alma. 
Que esphinge era essa moça de dezoito 
annos I 

Virgem, que o severo pudor velava, e falan- 
do de amor com a franqueza e a calma de quem 
Já d'elle se saciara! Coração puro de paixões e 
ermo já de esperança! 

Seria a congelação precoce do sentimento? 

Não! pensava eu. Deve de ser a ingenuidade 
da innocencia. As rosas do sua alma não podem 
ter assim murchado na primavera da vida; estão 
a.pci>as em botão; o que as desmaia é a sombra 
da infância ainda, e não o verme do coração — a 
duvida. 

Amava Emilia, sem o saber; comecei a ado- 
ral-a. 

Que horas encantadas vivi repassando na me- 
moria os seus desdéns! Agora eu os compre- 
hendia: elles me revelavão a tormenta de uma 
paixão nascente, que tolda a manhã da vida, como 
as tempestades dos primeiros dias do anno. Ella 
tinha medo de amar -me . . . Talvez amava-me já, 
resistindo ainda! . . . 

[76 1 



MH 



Diva 



— Meu Deus! exclamei. Que fiz eu para tan- 
ta felicidade ! . . . 

Uma circumstancia unicamente me parecia ots- 
cura, depois da confidencia de Emilia. Era a ma- 
neira por que me tinha recebido a primeira vez 
depois da minha volta. Era sobre tudo aquelle 
olhar fulg-urante de coiera, de tão soberba cólera! 
Não houvera nos seus olhos despeito só ou re- 
pulsão; houvera mais que ódio, profundo rancor. 

Uma vez pedi-lhe a explicação d'esse olhar ; 
,ella enrubeceu : 

— Não me pergunte issol... Não lh'o direi 
nunca ! 

Dois dias depois da nossa conversa junto á 
cascata, fui a Matacavallos, onde esperava en- 
contral-a. Ia cheio dos enlevos de tão sonhadas 
esperanças, inundado da felicidade que borbotava 
em meu seio ... Ia assim, transbordando dilúvios 
de immenso amor, que anceia^a por se rojar a 
seus pés. 

E bastou a sua presença para confranger de" 
súbito atí çnergicas expansões de minha alma. 

Ella respondeu ao meu comprimento com affa- 
bilidade, mas... Era a mesma afCabiJidade que 
dispensava á turba dos seus adoradores ! Quanto 
achei doce o passado desdém, que ao menos me 
distinguia! 

Erailia mostrava ter completamente esquecido ;j 

quanto entre nós houvera três dias antes. Uma 
vez no correr da noite quiz falar-ihe. Vendo-me 
aproximar, toda sua pessoa envolveu-se de re- 
pente na frieza glacial, que de longe ainda, já 



]l 



177] 



José de Alencar 

me tinha cong-elado a palavra nos labiss. Essa 
mulher, cheia de graç-a e vida, tinha o magico 
poder de fazer-se mármore, quando queria. 

N'e3sa noite, ella retirou-se mais tarde do 
que tinha costume. Ao sahir, pa-ssou junto de 
mim sorrindo: 

— Não quiz hoje conversar comigo? disse-me 
ocm um doce enfado. 

Faze idéa do pasmo em que fiquei. 

Emilia continuou a ser para mim uma es- 
phing-e. A^nimado por aquella palavra afiectuosa 
tornei-m^e a.ssiduo junto d'ella; porém encontrava 
sempre o mesmo acolhimento: g-elo na fronte, e 
saixasmo no la&io. Era quando eu menos espe- 
rava, n'alg-uim momento em quo nos achávamos 
sós, que ella vertia sobre mim, n"um oiher ou 
n'uma palavra, a ternura de sua alma. Mas de- 
pois quantos amargores, quantos azedumes não me 
cutsavão aquellas gotas de mel! 

A reunião de que me falara D. Leocadia 
realizou-se a final, iíra o anniversario do Sr. 
Duarte. A. casa do negociante encheu -se pela pri- 
m^eira vez (le uma multidcão de convidados. A 
'f&sta começou de manhã e acaoou em um baile 
esplendido ao ah^orecer do dia seguinte. 

Á noite uma cascata de luz, borbotando dos 
salões, despenhou-se pelos jardins e alamedas da 
chácara. Os repuxos de mármore esguichavão ru- 
bins e diamantes líquidos. As folhas, que a brisa 
balouçava, erão n'esse adereço do baile as esme- 
raldas, tremulando entre ascuas de ouro. 

Que magnificências de luxo, que pompas a 



r 7 



78 j 



Diva 



natureza e a arte hão derramavão sobre aquella 
festa nocturna! Um' céo abrio-se ali; e a deusa 
d'elle atravessava com gesto olympio a via lác- 
tea dos salões resplandecentes. Seu passo tmtia 
o sereno deslise, que foi o attributo da divin- 
dade; ella movia -se como o cysne sobre as aguas, 
por uma lig^eira ondulação das formas. 

A mu'tidãi0 afastava-se para deixal-a passar 
sem eclipse, na plenitude de sua bellezit. Assim, 
por entre o esplendido turbilhão, ella assomava 
como um sorriso; e era realmente o sorriso mi- 
moso d'aquel]a noite esplendida. 

Eu contemplava-a de longe e arredado. Sen- 
tia-me triste. O dia inteiro, Emilia, absorvida 
pela festa, nem sequer notara a minha presença. 
£squecia-se de si própria, das homenagens ar- 
dentes rendidas á sua belleza, p:ira occupar-se 
exclusivamente iCfessa exliibição de luxo e riqueza, 
que ella preparara como uma inspirí;jj,ão de artista 
e poeta, como um painel ou um poema. 

Foi só quando o edificio ilíuminou-se e a or- 
chestra derramou torrentes de harmonia, que Emi- 
lia recolheu em si. Sem duvida nesse momenio 
'ella deixou de ser artista para ser mulher. Vi-a 
algum tempo absorta e isolada em sua aima, no 
meio ida turba de adoradores. 

De repente sobresaltou-se; como uma estrella, 
que se desnubla em' noite límpida, começou a 
scintiliar. A quadrilha a chamava. Ella atravessou 
a sala, semeando sorrisos e enlevos n'alma d'a- 
quella multidão extática, e desappareceu. 

Fiquei onde estava^, e sem animo de sejuil-a. 



{79j 



José de Âlencaf 

Erã,o onze horas já. Duas vezes tinha-me diri- 
gicljO á porta para me retirar, e duas vezes achá)'a 
um pretexto para demorar -cie. Emilia passou pelo 
traço do Dr. Chaves. 

— Qual é a contradansa que eu lhe dei? dis- 
se-me ella com a maior naturalidade. 

Essa palavra maguou-me ainda mais. Eu pen- 
sava que Emilia reparitóse na minha esquivança, 
e iíiudíra-me. Ia desfazer o seu engano, quando 
ella atalhou-me : 

— Ahl... Foi a sexta... É esta! 
Depois voltou-se para seu cavalheiro: 

— O senhor i)ermitte ? . . . 

Deixando o traço do deputado, tomou o meu. 

— Creio que a senhora enganou-se, D. Enulia. 

— Parece-lhe ? . . . acudiu sorrindo. 

— De certo ! Só um engano me podia dar 
este prazer. Eu não me animava a pedir-lhe uma 
conti-adansa. 

— Pois ou creio que foi o senhor quem se 
eng;.uou. Não ihi' j-orguntei qual foi a quadrilha 
que mo pediu, mas sim a que eu lhe dei . . . em 
tora não me pedisse I 

— Ah ! perdão ! 

— Eu devia, respondeu-me st''ria. Lembre-se ! 
Era uma reparação. 

— Embora! Como me podia eu suppôr tão 
feliz ! 

— Porque ! Por dansar uma contradansa co- 
migo? disse ella rindo. Aleu Deus! O que é essa 
felicidade que os outros achão em cousas tão pe- 
quenas e eu . . . 



mmm 



í 80 1 ! 

J 



Diva 



— E a senhora ? . . . 

— E eu ainda não encontrei na minha vida. 

— Não diga isso, D. Emilia I A senhora não é 
feliz? 

Tínhamos chegado ao terraço, onde as luzes, 
brilhando entre as grandes folhas das palmeiras 
imperiaes agitadas pela briza, fazião sobre o pa- 
vimento uma ondulação constante de claros e som- 
tras. Algumas flores de magnólia exhalavão para 
nós ,0 seu fresco perfume. 

— Não, não soa feliz ; disse Emiíia, descahindo- 
Ihc a fronte. Nada d'aquÍ!lo em que o mundo pensa 
que está a felicidade, nada me falta; e eu não 
a tenho, não sei achal-a onde todos a encontrão a 
cada momento. Ás vezes, quantas ! . . . sinto um 
que quer que seja, uma ligeira emoção, como um 
sorriso que vem despontando em minha alma. É 
talvez a felicidade, digo baixinho: e fico muda 
e extática para não perturbar dentro em mim 
esse débil raio que vai nascendo. Mas de repente 
some-se tudo, como se um atysmo se abrisse; 
procuro minha alma n'esse vácuo immenso, e 
não a sinto! 

Emilia falara maviosa e triste; n'esse mo- 
mento ella pôz os olhos em mim- e sorriu. 

— Se isto fosse uma enfermidade, o senhor 
curava-me; mas não é. E quem sabe? Talvez 
seja! Q 

— Não é uma enfermidade, não ; é outra cousa. 

— O que? Diga! 

— Não será um sonho ainda não realizado?... 
Uma aspirarão vaga e indefinida? 



181] 



wmmm 



José de Alencar 

— Pôde eerl Não seil respondeu-me com en- 
cantadora ingenuidade. 

Meu coração abriu-se de novo á doce espe- 
rança, que d'elle se partira. 

Depois d'esse baile/, a casa de Duarte recebeu 
todos os domingos a sociedade que D. Mathilde 
reunia habitualmente nas quintas feiras. Encon- 
trava-me pois com Emilia dois dias na semana, 
além das visitas que algumas tardes fazia ao Rio 
Comprido. 



XI 



AS vicissitudes de frieza e indifferença-, com 
que Emilia me tratava, nao tinhão nada 
que se pai^ecesse com' o jogo bem conhe- 
cido das moças loureiras, que desdenhão quem as 
persegue e procurão quem as foge. Não havia re- 
lera 'nos seus caprichos. Quando ella queria vir 
a mim, vinha, sem affectação, francamente, es- 
tivesse eu perto ou longe, embebido a contemplai-a 
ou distrahido ao braço de outra moça. 

Emilia não tinha rivaes, não me disputava a 
ninguém; dominava-me na soberania de sua bel- 
leza, e attrahia-me ou arredava-me a seu bel 
prazer, com um senho da sua graciosa mages- 
tade. 

Eu era para essa moça como um vaso onde 
eíla guardava as essências de sua alma para mais 
tarde aspirar-lhes o perfume. Quando chegavã-o as 

[82] 



wmmmmmmimUim 



Diva 



horas d'essa af fluência do coração, ella procu- 
rava -me para vasal-a em mim: a sua palavra ar- 
dente abundava então do labio vivido. Outros dias 
chegava -se muda e absorta; parecia haver den- 
tro d'ella mna grande solidão, onde seu espirito 
se perdia. 

— Dig'a-me alguma cousa! murmurava ella. ' 
Fale me . . . Fale do eco, das nuvens, do mar, 
do que Deos creou de melhor n"este mundo I . . . 

E eu falava; e ella bebia íis minhas pala- - 

vras, que lhe matavão a sede d'alma. 

Fora d'esses momentos, em que sua alma 
sentia uma necessidade irresistível de expansão 
ou de absorpção, ella parecia esquecer -me. 

Foi por esse tempo que eu tomei uma grande 
resolução. Afagara sempre a idéa de ter uma 
pequena chácara onde me refugiasse ás tardes, 
escapa.ndo ao borborinho da cidade. 

Aproveitei esse pretexto para aproximar-me 
de Emilia. Indo vlsital-a um dia,- vi com escritos 
uma casa pendurada na aba da montanha, perto 
de sua chácara. D'ali descortinava-se o seu jar- 
dim, o terraço e as janeíias dos aposentos que 
'ella occupava na face esquerda do edificio. Com 
um óculo de alcance eu poderia vel-a a cada mo- 
mento. 

Alugada .a casa, assaltou-me o receio de de- 
sagradar -lhe. Sabia eu se era amado? E quando -^ 
o fosse já, a imprudência que ia commetter não 
assustaria uma affeição nascente? 

— Não importa! pensei eu. É um meio de- 
cisivo de saber se ella me ama. 



[83] 



José de Alencar 

Fui vel-a. Estava no jardim com D. Leoca- 
dia; brincava com um grande cão da Terra Nova, 
e pai'ecia sentir um indefinível prazer em irri- 
tar a cólera do tranquillo animal. Uma vez corri, 
pensando que ella ia ser vietima da sua impru- 
dência; o cão irado rosnava, encolhendo o dorso, 
e rolando a pupilla injectada. 

'Emilia sorriu; a um gesto de sua meão, o 
animal foi deitar -s© a seus pés, acariciando a fim- 
tria do vestido. Ella atirou-lhe um olhar desde- 
nhoso, e tocando -o com a ponta da botina oi)ri- 
gou-o a afastar-se. Depois voltou-se para mira com 
uma expressão indefinível de orgulho repas.-íisdo 
de tédio: 

— Nã.0 tenha receio . . . Tudo aqui me ol^edece, 
até este bruto!... Por mais que o irrite... N4o 
passa d' isso! 

Annunciei-lhe a resolução que tomara de apro- 
ximar -me 'd'ella; e o fiz tremulo e receioso. Rcs- 
pondeu-me com simplicidade : 

— Melhor! Estaremos mais perto! Estimo bem. 

— Pois eu receiava que isso lhe desagradasse! 

— Por que motivo ? 

— Já não tem m.edo?... perguntei-lhe sor- 
rmflo. 

— Do senhor ? . . . Não I . . . De mlrn . . . talvez. 

Emilia tinha d'essas phrases incompletas, pro- 
feridas com uma singeleza volubil, das quaes era 
impossível comprehender ,o verdadeiro sentido. 

Imagina que delicia forão para mim os dois 
breves mezes que passei n'aquelle pittoresco re- 
tiro do "^Río Comprido, onde eu me abrigava to- 

[84] 



Diva 



das as tardes como no reg-aço da íelicidade. Tra- 
talbava então com enthusiasrao. Os júbilos que 
vertião de minlia alma sofcrarião á vida ma4s 
pródiga; eu tinha ventura em profusão, que che- 
garia tem para encher duas existências. E entre- 
tanto não ousara ainda confessar a Emília o meu 
amorl 

Como as plantas mimosas, a minhFi ventura 
só floria na sombra. Era na intimidade e no iso- 
lamento que Emilia vertia para mim os perfumes 
■do sua alma. "Na sala, apezar de marcai- -me com 
a distincção subtil e delicada que é um tacto do 
coração, com.tudo eu sentia q,ue o seu olhar so- 
berano me confundia na multidão, sobre que 
ella reinava pela formosura. As noites em que 
do seu lábio altivo fluião ondas de fino sarcasmo, 
nem a minha submissa admira.ç,ão achava graça 
perante eila. 

Chegou a véspera de Corpo de Deos. 'Emilia 
estava sentada ao meu lado: 

— Amanhã não vou á cidade ; disse-me ella. 
Se lO dia estiver bonito como o de hoje, pretendo 
fazer um passeio, que ha muito tempo não faço. 
Quer acompanhar -me ? 

— Ia supplicar-ihe esse favor, mas não me 
animava. 

— Irem.os até o alto da montanha. Quando 
eu percorria só esías veredas escarpa.d;is, os ru- -J 
mores da mata, as grandes sombras que oscilião ^ 
pelais encostas, o ermo da profunda solidão, me 
fazáo scismar, e sentir cousas que eu não com- 
preheudia. Desejava ter ali, perto de mim, alguém 

í ^2 j 



José de Alencar 

a quem falar; um coração amigo que recolhesse 
.0 que transbordava do meu, para m'o restituir de- 
pois. Iremos juntos amanhã. Quero ver como sen- 
tirei agora, ao seu lado, o que sentia outrora no 
isolamento de minha alma. 

Ás lOnze horas da manhã eu esperava por 
Emilia, no lugar que elía me degignára na vés- 
pera. Era um bosque espesso de bambus, que 
ficava distante da casa, mas dentro ainda da sua 
chácara. Para chegar ali, atravessei o mato, que 
se estendia desde a minha habitação pela encosta 
da montanha. Tomara o disfarce de caçador, 
afim de quiS; o nosso encontro parecesse imprevisto. 

Instantes depois de. chegado, ouvi rugir o 
palhiço dos biambús que tapetava o chão; Emilia 
appareceu. 

Vinha só. 

Confesso-te, Paulo, que eu senti n'esse mo- 
mento tiritarTme o coração de frio. Apezar do que 
Emilia me dissera na véspera, o facto de querer 
ella achar -se a sós comigo n'um ermo, me pa- 
recia tão impossível, estava isso tão fora dos 
nossos costumes brasileiros, que eu repellíra se- 
melhante idéa. Acreditava que ella se faria acom- 
panhar de sua criada ao menos, dando -me assim 
unicamente a liberdade da confidencia, por que 
eu tantc suspirava. 

Entretanto Emilia conservava a mesma se- 
renidade que tinha no salão; ao vel-a parecia 
que ella praticava o acto o mais natural. Sorria 
graciosa. Nem um longe rubor no setim da face; 
nem uma névoa nos olhos límpidos e calmos. 

[86] 



fimmmmmmmmmtiÊmÊÊmÊmÊmm 



Diva 



E ella tinha razão, Paulo, de conservai? essa 
plácida confiança. 

Havia na sua belleza um matiz de castidade, 
que a. resguardava melhor do que um severo re- 
cato. Eu sentia muit-as vezes, estando só com ella, 
a influencia d'essa força mysteriosa, que residia 
em sua tez mimosa; mas só te poderei explicar 
o que eu sentia por uma imagem. 

Tens reparado na doce pubescencia de que a 
natureza vestiu certos frutos ? Sc a nossa mão 
a alisa, experimenta uma sensação avelludada; se 
ao contrario a erriça, o tacto é áspero. 

Assim era o pudor de Emília. 

Olhos puros e castos podião espreguiçar -se 
docemeíítc por sua belleza, porque uma serena 
candidez a avelludava então. Ao mais leve ru- 
bor porém, a alma de quem a contemplasse magua- 
va-se na aspereza d'aquella formosura, tão suave 
ha pouco. 

Não era preciso que Emilia dissesse uma pa- 
lavra ou fizesse um gesto para recalcar no inti- 
mo o pensamento ousado que mal despontara. Uma 
dór intima accusava-rae de a ter offendido, an- 
tes que eu tivesse a consciência d'isso. 

Nunca se adorou de longe, na pureza de co- 
raç-ãc, com respeito profundo e um severo re- 
cato, como eu adorava Emilia nas horas que tantas 
vezes passámos a sós, perdidos n'aquella solidão, ) 

onde não encontrávamos creatura humana. 3 

Avalia do excessivo melindre de Emilia por 
dois factos que te vou contar. 

Um dia, repetindo esse passeio da montanha, 



(87) 



José de Alencar 

ella qiiiz atravessar o leito empedrado de um 
córrego que se precipitava pela fraga escarpa- 
da. Seu pé resvallou; eila ia espedaçar-se. Es- 
tendi 06 traços para amparal-a. Repelliu-me com 
violência, exclamando irada: 

— Deixe-me morrer, mas não me toque! 
Outra vez, uma noite de partida, eu dava-lhe 

o traçío. N'umia volta, a minha manga, inadver- 
tidamente, mal roçou-lhe o marmóreo contorno do 
seio. Ouvi como um débil queixume, que exlia- 
lárão seus lábios. Voltei-me. Estava hirta e lí- 
vida, presa de uma rápida vertigem. Aniquilou-me 
com um olhar de Diana; retirou o braço; dei- 
xou-me immovel e pasmo no meio da sala. 

Uma semana não me quiz falar. Quando afi- 
nal obtive o meu perdão, ainda me lembro do 
modo estranho por que me recebeu: 

— É a segimda vez que lhe tenho ódio I 
Soltand^o essa palavra, seu lábio túmido pa- 
recia sugar d 'ella um gozo ignoto. As róseas na- 
rinas titillárão, emquanto os olhos velando -se, afo- 
gavão n'um fluido luminoso. 

N'essa mesma noite, como uma compensação 
do que a sua severidade me fizera soffrer, con- 
cedeu-me uma graça que eu nunca ousara espe- 
rar. 

Dansava-se. Eniilia soffria como sempre a 
vertigem do baile, que era poderosa em sua or- 
ganisação. 

Apezar da subtileza de beija- llôr com que 
ella esvoaçava, n,S.o deixando as puras azas ro- 
çarem pelo mundo . torpe, eu tinha ciúmes da 

188) 



ttriiMIMH 



J 



Diva 



graça- que esparzia assim para todos. E soffria 
cruelmente, assistindo aos triumphos da sua bel- 
leza. 

Ella percebeu, e veiu a mimi: 

— Porque está triste ? 

— Porque sou egoista, e não tenho o direito 
Emilia sorriu. 

— A nossa amizade é uma ílôr muito^ suave 
para este clima de sala. Não lhe parece ? . . . Por 
força ha de eentir aqui. 

Fazia uma linda noite, sem luar. As copas ! 

escuras das arvores nadavão no aziíí diaphano, i 

borrifado peia doce luz das estrellas. 

Emilia recoitou-se á janella, e emquanto fa- 
lava, seus olhos se banliavão na suave limpidez 
ao Côo. 

— Como está estrellada a noite!.. . Ali n'a- 
quelle silencio a alma pode abrir -se; não é ver- 
dade? Niã/) ha rumor que a assuste, nem esse va- 
por que abrasa ! . . . Eu g^osto da noite ! . . . É mais 
doce que o dia. É quando eu sinto, quando sei 

melhor sentir, é á noite; sobretudo nas noites J 

escuras, como esta, em que só ha estrellas! O sol 

me alegra, como a grande claridade das salas, 

e Ime anima. Eu creio que as horas, cm que sou 

m'ais bonita é a.o meio-dia no campo e á meia-noite 

no baiie! Não sabe porque! Tenho bebido muita 

luz; a luz é um alimento para mim. Mas a hora 

em que sou mais bonita, não é a hora em que 

me sinfio melhor, acreditei Na sombra sim, co- 

nheçiO que meu coração é bom. Pareço-me com as 



4 



[89] 



José de Alencar 

flores. De dia as cores mais vivas ; de noite o per- 
fume 'mais suave I 

Eu escutava Emilia, enlevado como sempre 
que, em nossas conversas intimas, ella fazia scin- 
tillai" a graiça de seu espirito volubil. E se vi- 
nhão de envolta alguns raios d 'essa- fragrância, 
jjue ella chamava perfumes de sua alma, eu os 
recolhia santamente no coração. 

, Emquanto ella falava, eu reprimia a respi- 
ração para não perturbar a melodia de suas pa- 
lavras. Se me perguntava alguma cousa, tinha 
medo de responder-lhe; parecia que minha voz 
ia dissipar o ijncu êxtase. 

— As melhores horas da minhia vida, vivo- 
as dt noite. É quando Deos me visita. Elle desce 
nos raios das estrellas, e entra em niinlia alma, 
abertci para recebel-o. Tenho-o sentido aqui den- 
tro tantas vezes I . . . Veiu-me agora um capri- 
cho I . . . Olhe ! . . . Quando essas luzes se apagarem, 
e todo53 recolherem, quero gozar d'esta bella noi- 
te .. . Mas ha de ser lá, á sombra d'aquellas ja- 
queiras, á beira do lago. 

As jaqueiras de que falava Emilia, ficavão 
muito distantes da casa. Insensivelmente movi a 
cabeça com ura gesto de duvida. 

— O senhor não acredita?... Pois vá até lá. 

— Consente I . . . 

Seu olhar casto pousou em mim, como uma 
linda criança conchegando-t;e no regaço materno. 

— Á uma hora. Eu, o espero. 

Que estranha e bizarra creatura, Paulo I Com 
que desdém ella, frágil menina de dezesete an- 

[90] 



Diva 

noe, pura como um anjo, calcava aos pés todas 
a,s consideraçiões socia-es, todos os prejuízos do 
mundo 1 Ella dava^mieí a maior prova de confiança, 
e o Tãzia. singela e natural, apenas com uma 
dignidade meiga de rainha compassiva. Arriscava 
por mim sua reputaçã/C, e nem lO mais leve receio 
lhe perpassava na fronte serena. 

Emfim, Emilia dava-me esta. entrevist-a, alta 
noite, em um ermo, corno me convidara para o 
passeio a Sa,nta The reza, como me dera a primeira 
contradansa que dansámos, como me daria uma 
flor, um sorriso, um olhar. 

E tinha razão. 

Não estava ella em qualquer lugar mais pro- 
tegida pelo seu pudor celeste, do que tantas mu- 
lheres desvalidas d'elle no meio de um salão? 



XII 



EEA uma hora da noite. 
' Eu esperava Emilia com os olhos fitos na 
janella de seu quarto, as únicas em toda 
a casa que ainda apparecião frouxamente esclare- 
cidas. 

Já te disse que os aposentos de Emilia, uma 
alcova, um gabinete de vestir e uma sala de 
tratalho, occupavão a face esquerda do edifício. 
D 'esse lado o sobrado apoiava-se a uma escarpa 
da Gollina, que lhe servira como de alicerce, e que 



[91] 



mi 



José de Alencar 

para elegância da conslrucção, o architecto dis- 
farçara com um terraço. 

O gabinete de Emilia abria uma porta para 
esse terraço. Ali no quadro illuminado pela cla- 
ridade interior, vi eu de longe desenhar -se seu 
vurt.o esbelto. Avançou ate a borda do rochedo 
escarpado. 

— Que vai ella fazer, meu Deus! balbuciei 
tremulo e frio de susto. 

Esquecendo tudo, para só lembrar -me do risco 
imínenso que sua vida corria, fui para soltar um 
grito de pavor que a suspendesse; ma-s ella, i^es- 
valando pelas pontas erriçadas do rochedo abru- 
pto, já tocava a planície. Pouco depois estava 
junto de mim, calma, risonha, sem a menor fa- 
diga. 

— Aqui estou! disse afoutamente, abaixando 
o capuz da longa mantilha. 

— Para que arrisca assim a sua vida, D. 
Emilia ? Se eu soubesse . . . não tinha aceitado ! 

Ella ergueu os hombros desdenhosamente. 

— Ainda estou frio! . . . Parecia-mei a cada mo- 
mento que o pé lhe faltava e . . . 

— E eu morria ! . . . Se não fosse isso, teria 
eu vindo? Podíamos ficar onde estávamos, trati- 
quillamente sentados no sofá . . . Para que ser- 
viria a vida, se ella fosse uma cadeia? Viver é 
gastar, esperdiçar a sua existência, como uma 
riqueza que Deus dá para ser prodigalisada. Os 
que só cuidão de preserval-a dos perigos, esses 
são os peiores avarentos! 

— E quem se priva a si áo mais bello sen- 

[92] 



IMMMãtfHHMHMHaaBHaHHnMiiHiBaHiBBaaBBss 



Diva 



<imento, quem se esquiva de amar, não é avaro 
também da vida, avaro de seu coração e das ri- 
quezas íle sua alma? A senhora o é, D. Emilia! 
Oh I Não negue I 

— Como elle se engana, meu Deus ! excla- 
mou Emilia erguendo ao céo os tellos olhos. 

— Que diz ? . . . Então posso acreditar em- 
fim? 

E murmurei arquejante. 

— É verdade que me ama? 

Nunca até aquelle momento, durante dois me- 
zes vividos em doce intimidade e no conchego 
estreito de nossas alm.as, nunca a palavra amor 
fora proferida em' referencia, a nós. E.milia dava- 
me, como já sabes, rodas a.s preferencias a que 
podia aspirar o escolhido de seu coração, e as.-:u- 
míra para comigo o despotismo da mulher ama- 
dji. com paixão. Ella imperava em mim como so- 
berana absoluta. Seu olhar tyrannisava-me, e ia 
zia em minha alm'a a luz e a treva. 

A fonte de minhas alegrias, como de minhas 
tristezas, manava de seus lábios. Se elles abrião- 
se, (meu coração ahria-se também, em flor ou 
chaga., conforme o sorriso era orvalho ou espinho. 

Ella tinha consciência d'isso, mas persistia 
em chamar ao sentimento que nos ligava, uma 
boa e santa amizade. Á.s vezes que eu ousava 
começai" o nome doce e verdadeiro do meu af- 
fecto, seu olhar incisivo cortava-mie a palavra nas- 
cente; a minha culpa era rigorosamente punida 
com. alguns dias de uma indiffcrença completa. 

N'aquella noite, porém, cuidei que era che- 



[93] 



José de Alencar 

gada a hora da minha ventura. Tudo m'o annun- 
ciava. Essa entrevista alta noite, a solidão que 
nos cercnva, os perigos que Emiiia affrontira para 
ir ter comigo, o sereno contentamento derj-amado 
por toda sua pessoa, e ate a ultima palavra que 
proferira invocando a Deus; tudo isto não me 
dizia Icem claro e com a eloquência su])]ime das 
paixõe.^ irresistíveis, que ella me amava? 

Pois tem, Paulo; ouvindo a minha trenuila 
interrogação, Emiiia demorou seu olhar sobre mim, 
e disse-me com uma phicidez esmagadora: 

— Não; não o amo! 

Depois, como se quizesse atrajidar a dureza 
d'essa declaração, adoçou a voz para accrescon- 
tar : 

— Não o amo . . . ainda ! 

— p] nunca me ha de amar I 

— Porque ? . . . Escute ! Não se agaste comi- 
go. Sou franca; disse-lhe que não o amo ainda, 
é a verdade. Virei a amal-o algum dia? Só Deus 
o sabe. Sente-se aqui perto de mim: vou lhe 
fazer uma confissão. 

Ájoelhei-me junto ao banco. 

— De Joelhos ? Mas eu é que devia estar, 
pois sou eu quem se confessa ! disse ella rindo. 
O senhor me suppõe um coraçião frio e egoísta . . . 
avaro de amor, como dizia. É o contrario inteira- 
mente. Devia dizer um coração pobre, miserável 
de aflnoi', mas ambicioso, mas devorado pela sede 
immensa . . . Amor 1 Amor ! Não peço eu a Deus 
todos os dias que me encha d'elle esta alma? 
Tivesse-.o eu, que lhe dera sem hesitai' toda a 

í 94 J 



Diva 



minha vida, sem guardar para mira nem um ins- 
tante d'ella! Tivesse eu essa opulência de meu 
coração, que então o senhor não me chamaria 
avara, mas pródiga e louca, porque eu sinto que 
o seria . . . Sim, louca, de minha louca paixão ! 

— Eu julg-ava que tinha medo de amar. Creio 
que me disse. 

— De aonar, não; mas d'essas illusões ephe- 
meras, que murchãio o coração. "Queijo o meu bem 
vivo, para aal-o todo a quem iòr ci'elie senhor. 

Talvez aqueile a quem o aèr o dilacere. Em nora ! : 

Deve de haver delicias ineffaveis n'esse mesmo ' 

supplicio ! Depois, que supremo consolo I . . . Sentir ' 

o orgulho de só ter amado uma vez na vida ! . . . 
Sentir que não restão do primeiro e único amor 
senão cinzas do coração extincto. 

Esquecido já do desengano que recebera ha 
pouco, eu palpitava sob a palavra apaixonada de 
Emilia, como se fora o feliz que devesse merecei- 
tão sublime paixão! 5 

— Medo de amar ? exclamou ella. Pois saiba 

que mãi nenhuma espiando o primeiro sorriso j 

nos lábios do seu filhinho, teve os estremecimen- 
tos de ventura com que eu espreito o primeiro 
palpite de meu coraçião. Meu Deus, que Jubilo 
immenso não deve seir o amor, quando a esperança 
d'elle lios enche assim de contentamento! Foi ha 
cinco taezes . . . quando o senhor voltou ... Cui- 
dei que ia amar. 

— A mim ? 

— Sim, ao senhor. E desde então interrogo 
minha a*lma; escuío-me viver interiormente . . . Lem- 






[95] 



José de Aiencar 

brei-me até de escrever o que eu sentia. Seria a 
historia cie meu coração. No dia em que elle me 
dissesse que eu o amava, sem que o senhor me 
perg-untassc, sem o menor acanhamento, lhe con- 
fessaria. Acredite ! . . . 

— E seu corar^ão até agora nada lho disse 
ainda, D. Emilia? . . . 

— Meu coração di:i-mc que eu o estimo tanto 
como a meu pai; que o seniior occupa um.a gran- 
de parte de minha vida; qu(3 sua lembrança gra- 
vou -se e n,ão se apagará mais nunca em meu pen- 
samento ; que as horas qvtC j)a-sso a seu l;ído são 
as mais doces para mim; que nenhuma voz toí;a 
mais suavemente a^s cordas de minlia a ima. Eis 
o que m.c diz meu coração ; mas clíe não di;: 
que pelo senhor eu sacrificaria tudo, as considera- 
ções do mundo, minha fa.milia, as njiuhas a f fei- 
ções e os meus sentimentos; elle não diz que o 
senhor bastaria a minha vida,, e a encheria tin- 
to, que não houvesse mais lugar n'ella para ou- 
'tro pensamento e outro desejo. Não diz isto: !ogo 
eu náe o amo 1 . . . 

— Mas, D. Emilia, attenda! A senhora illu- 
de-se talvez ... 

— Sei o que pensa. Na sua opinião o amor 
assim, é impiossivell Pois jurolhe!-... eu só ama- 
rei assim. 

Emilia ergueu-se. 

— Ao menos diga-me. Posso ainda ter uma 
esperança ? 

— Eu a tenho 1... respondeu-me. 

Se o mundo soubesse um dia a historia que 

í 96 ] 



<mmm 



Dlvâ 



,éu te conto, Paulo, elle exclamaria sem duvida: 
«Tl impossível 1 Essa mulher não existiu!» 

E o imundo teria razão. 

A Emilia, de que eu te falo, não existiu para 
ninguém mais senão para mim, em quem ella 
viveu e morreu. A Emilia, que o mundo cohlie- 
cêra è já esqueceu talvez, foi a moça formosa, 
que atravessou os salões, como a borboleta, ati- 
ranòc ás turbas o pó dourado de suas azas. A 
flor, de que ella buscava o mel, não viçava ali, 
nem talvez na terra. 

Seria flor do céo? l 

XIII 

AVIA no 'tratamento de Emilia uma va- 
riação incomprehensivel. 
Ás vezes uma ternura suave e compas- 
siAa., como se ella quizesse consolar -me por não 
ser amado ; outras vezes parecia que a minha 
paixão a irrita.va. Tinha então o coração áspero 
e a palavra acre; mas era justamente nessas '^ 

occasiões de tormenta, que eu via scintillar em í 

seus olhos um raio de amor, e sentia vibrarem ^ 

as cordas frementes de sua alma. í 

Uma noite pedi-lhe que não dansasse mais 5 

com o Barbosinha; não que eu tivesse ciúmes ^ 

de semelhante fátuo; mas era elle d'esses homens 
ridículos cujo contacto mancha uma senhora. Emi- 
lia recusou, e eu voltei despeitado. ISTo dia se- 
guinte encO'ntrei-a agastada comigo: 




[97 1 



José de Alencar 

— '■ Não> consinto mais que me ame ! . . . disse- 
m« ella voltando as costas. 

Poucos instantes depois, passou pelo braço 
do Barbosinha e lançou-me este desafio: 

— Tire-me do braço d'elle, se quizer I . . . 
'Emilia tinha sobretudo um zelo excessivo de 

sua espontaneidade. Receiava ella que a menor 
graça feita ás minhas supplicas, valesse como 
uma prova de amor? Quando lhe pedia alguma 
cousa, mesmo pequena e insignificante, dessas 
que a moça a mais austera pôde conceder a um 
indifferente, ella recusava sempre, e com tal fir- 
meza., que me tirava a coragem de insistir. 

Se eu me ag'astava, escarnecia de mim; se me 
resignav^a e esquecia sua recusa, vinha esponta- 
neamente com uma singela, ma-s altiva dignida- 
de, conceder-^ne alguma prova de affelção, tal 
que eu nunca me animái^a a esperar. 

*Lombro-me de uma vez que, insistindo eu 
por um botão de rosa que ella tinha nos cabei- 
los, Emília conservou-o no seu penteado por muir 
tos dias até seccar; como se achasse um prazer 
infinito em prolongar assim tacitamente a sua re- 
cusa. Dias depois, sem que eu lhe pedisse, de 
injj.roviso, deu-me o seu retrato. 

— Guarde-o para lembrar-se de mim! 
Depois da noite em que estivemos juntos á 

torda do lago, Emilia parecia evitar -me. Tinha 
decorrido uma semana. Erão oito horas "da manhã; 
manhã de inverno, coberta de espessa cerração, 
que peneirava no ^r uma garoa finíssima. 
Resolvido a não ir á cidade senão mais tarde, 

[98] 



MMWHMMM 



Diva 

estava eu sentado á janella, d'ond'e avistava a 
casa de Duarte. ' Esperando ver Emilia passar na 
varanda e cortejar-nie de long-e, comio ás vezes 
costumava, eu reflectia sem querer sobre esse ca- 
racter [Original de moça. 

De repente, sou arrancado ás minhas reflexões 
por uma chuva de boga-rins; e ouço perto o gor- 
geio de um riso melodioso, que os échos de mi- 
nha alma tanto conhecião. Emilia estava defron- 
te, além da cerca de espinheiros que dividia o 
meu jardim da sua chácara. Uma capa de cacho - 
mira escura cobria-lhe quasi todo o vestido, e 
o capuz meio erguido m.oldurava graciosamente 
seu rosto divino. 

O exercício lhe avivara o saboroso encarnado 
das faces, onde tremulavão algumas gotas de chu- 
va. Seus olhos negros saititavão de prazer, como 
dois colibris voando ao meu encontro. Curvava-se 
para colher os botões de bogarim que me ati- 
rava; e tão suaves erão as flexões desse talhe, 
quL- apezar das largas roupagens percebia-se a 
doce vibração do movimento revelado exterior- 
mente por um harmonioso ondulado. 

Eu devera já estar habituado aos caprichos 
d'essa moça; mas ludo quanto ella fazia era tão 
desusado, que me levava de sorpresa em sorpresa. 
Assim correndo ao seu encontro, não achei pala- 
vras, mas unicamente sorrisos para acolhel-a. 

— Está admirado de me ver aqui ? disse ella. 
Não: gosto de ser contrariada, nem mesnp pelo 
céo. Acordei hoje com uma alegria de passari- 
nho 1 Tinha saudade das arvores"! . . . Abri a mi- 



99] 



José de Alencar 

nha janella; estava chovendo. Ora! Para que se 
inventarão as capas e os guarda-chuvas ? Vi-o de 
lá pensativo . . . Em que estava pensando ? 

— É preciso perg-untar-me ? Em que penso eu 
sempre e a todas as horas? 

— Em mim ? . . . Pois aqui estou ! 

— Que imprudência I . . . 
— '- Deveras I 

— Oh! não me chame de ingrato para a fe- 
licidade! 'Míus se ella deve custar-lhe o menor 
dissabor!... não a quero! Podia alguém vel-;) I . . . 

— Eu não me escondo!... respondeu Emília 
com altivez. 

Depois velando-se de súbita melancholia, acres- 
centou com um sorriso: 

— Não tenha cuidado. Eu sou rica; não me 
comprometto. 

— Que significão essas palavras, D. Emilia? 

— Vamos nós agora discutir aqui, de um e 
outro lac(o da cerca?... atalhou ella rindo franca- 
mente. Já não me lembra o que disse! Mas com 
effeitCi, o senhor é bem pouco amável! Nem se- 
quer ainda me convidou para entrar! 

— Eu não me animava! 

— Foi bom então que me animasse eu, do 
contrario ficaríamos aqui, á chuva ! Está bem ! 
Faça -me lO favor de abaixar a cabeça. 

Tirou o seu lençOj, e vendou-me com elle. 

Depois calcando a mão soDre o meu Tionibro, 
percebi que ella saltava a cerca. Creio que sua 
botina resvalando pelos galhos húmidos do es- 

1100) 



mmmimmmmmmmmm 



Diva 



plnheú-o lhe trahiií o elance, porque senti íio meu 
peito a doce pressão de seu tallie. 

Eepelliu-'me logo. Ouvindo o ai que soltarão 
seus lábios, arranquei o lenço arrebatadamente, 
e sorprendi seu olhar . . . Que olhar, meu Deus I . . . 
A vorag-em de uma ahna revolta pela paixão, o 
afcrindo-se para tragar a victima. 

Mas foi tão instantâneo, que eu não posso 
af firmar que vi. Já ella se tinha afastado brus 
camente dilacerando enti*^ os dedos os renovos 
das plantas, que sua mão tremula encontrava na 
passagem. ,0 capuz lhe descera, deixando a ca- 
beça exposta- iá chuva e á briza cortante. 

Depois de algumas voltas pelo jardim voltou 
calma, serena e risonha; dirigiu-se á porta, in- 
dicando-me com um aceno gracioso que a se- 
guisse. JSTa sala de jantar onde entrámos, estava 
uma cafeteira; ella encheu uma chicara e bebeu 
dois ou três goles frios e sem assucar. 

— Ah! Aqui é o gabinete, onde se estuclai 
disse parando no limiar. Póde-se entrar? 

'Eu tinha vergonha da minha modesta habi- 
tação, que nãrO era digna d'aquella honra. Con- 
fuso, acompanhava quasi como um autómato a ella, 
que vagava <le um^ para outro lado, naturalm.ente, 
sem p menor vexame. Meu gabinete de traba- 
lho era n'esse tempo muito pobre; o que havia 
de melhor estava na cidade. Emilia correu a es- i 

tante com os olhos, lendo o titulo das poucas obras 
literárias, com esse tom affectuoso com que sau- 
damios aníigos amigos. 

— O senhor nunca fez versos? 



^ 



[101] 



José de Alencar 

— Que!m é que os não fez aos dezoito an- 
nos ?^ 

— Eu!... Tenho dezoito ajinos e nunca fiz 
v!m só. 

— Inspira -os, que é o melhor. 

— Obrigada! Já lhe inspirei alguns? 

— A senhora ... D. Emilia? . . . 

— A senhora... Porque não me chama Mila? 
É como me tratão os que me querem bem'. 

— E Mila chamará Augusto? 

— Está entendido ! Não é como lho cham.ão 
seus amigos? 

— Meus amigos me tratão por tu; disse eu 
Sorrindo. 

— Isso não! Quando eu disser tu, é porque 
não existe mais eu em mim. Porém responda! 
Já lhe inspirei algimi verso?... 

— Quantos, meu Deus 1 

— Mostre-me! Quero ver! 

— Mas eu não escrevi! Para que? Elics não 
diriãio tudo que eu sinto. 

— Pois agora ha de escrevel-os para mira: 
sim, Augusto? 

— Não, Mila. Eu já não sei, ou antes nunca 
sube fazer versos. Qua^ndo se começa a vida, 
sente -se essa velleidade; é natural. í; o tempo 
das flores, dos sorrisos e dos cantos. Isso passa. 

— Mas porque não ha de escrever ainda ? 
Se não quer ser poeta, seja escritor. Não tem am- 
bições? Não amJa a gloria? 

— Amo; a 'gloria da minha profiss.ão, a única 
a que devo e posso hoje aspirar. É uma gloria 

1102] 



Diva 



obscura e desconhecida, bem sei. Nossos triumphos, 
não os obtemos na praça, ou no tfieatro, diante 
da multidão que applaude; mas lá, no recôndito 
de uma casa, no aposento silencioso, onde geme 
a creatura. Só Deus os contempla, só elle os recom- 
pensa.. .0 mundo, e aquelles mesmos a quem sal- 
vamos, nos pagão, mas nem nos agradecem ás 
vezes. Foi a natureza, dizem elles. Mas as reve- 
zes, esses pesão sobre nós. É uma gloria amar- 
ga, "Emilia., a que me coube em partilha. 

— Quem o impede de aspirar a outivas ? 

— A minha consciência. Quando me dediquei 
á medicina não busquei só um meio de vida, vo- 
bei^e a um sacerdócio. Sinto que a minha apti- 
dão é essa; fugir a ella fora mentir á minha 
missão n':este mundo. 

— Tem razão! A verdadeira gloria deve de 
ser essa; fazer o bem^. Eu é que sou uma lou- 
ca 1 Mas já gostava da medicina; agora vou gos- 
tar ainda mais. 

E para confirmar seu dito, Emilia começou 
a examinar os instrumentos e livros com uma 
travessura infantil, roçando por elles de leve a 
ponta dos dedos, como se os acariciasse. O aca- 
so deparou-lhe um atlas de anatomia; pousando 
entã,o a ponta da unha rosada sobre o titulo, vol- > 

tou^e para mim sorrindo; : 

— ^^"Quero ver o coraçãol Onde está? . -^ 

E afastou-se emquanto eu folheava o atlas 
para mostrar-lhe a estampa que ella pedira. Es- 
teve a olhar muito tempo; afinal murmurou: 



^ 



\ 



Í103] 



José de Alencar 

— Quando eu imorrer, Augusto, ha de exa- 
minar ;o meu... Para ver se é differentel 

— Que idéal... Deixe isso, Mila! retorqui fe- 
chando os livros e instrumentos nos armários. 
Sinto não ti cr em rainha casa objectos mais ale- 
gras *para distrahil-a. A minha profissão é tristxí, 
já lhe disse, bem triste! Vive das misérias do 
prcximo. Suas alegrias são sempre travadas de 
dores I... Afinal nos habituamos. Mas emquanto 
não cheg-a essa indifferença, que duvidas! E quan- 
do chega, que aridez! For isso, Emilia, eu sinto 
a íiecessidade de um santo ajnor, que me proteja 
con.ra a. descrença, e me preserve a alma d'esse_ 
terrível contagio do materialismo. 

Emilia ime ouvira commovida. Ergueu-me a 
fronte, para que eu recebesse o meigo soriiso, 
cheio de ternura, que ella me queria embeber 
n'a]ma. 

— ,0 que lhe disse eu n'aquella noite'?... Es- 
pere! Talvez não espere muito tempo! 

Envolvendo-se na sua capa, fugiu por entre as 
arvores. 

Depois d'essas mutuas expansões e das nos- 
sas entrevistas solitárias, depois sobretudo da pro- 
messa que ella me fizera partindo, parecia natu- 
ral que eu fosse crescendo na af feição de Emilia; 
porém esta moça era cada vez mais incompi-e- 
hensivel. Os dias que seguirão tratou-me com bas- 
tante frieza: e uma tarde com desdém até. 

Achei-a lendo uma folha de pequeno papel 
bordado que me pareceu carta: pensei que fosse 
da prima. Ella nem' ergueu os olhos para compri- 

[104] 



■mmmKÊmmmmmmmÊÊÊÊgBmsÊÊÊÊSSBSSSSSSBSSSSS^^^sssssssss^ÊÊÊsaÊMj 



Diva 



mentar-me; e respondeu com' uma simples íncli- 
íiaçião Ida fronte. Sentei-me; diri^i-lhe por veze.s 
a palavra sem' obter mais resposta que um sim 
ou não: afinal conhecendo que ella estava pre- 
occupada, esperei calado pelo seu tel prazer. 

Emília leu e releu, talvez já esquecida da 
minhi;-- presença; dob irando o papel, que mettcu 
no bolso, começou a passear pela sala, visivel- 
mente distrahida. Por momentos soltava débeis 
modulaições de alguma, ária; depois fugia-lhe pe- 
los lábios um sorriso mysterioso, d'e3se3 que se 
sorriem sem consciência, verdadeiras esphingos 
d'alma. 

Niã,c tae pude mais conter : 

— Adeus, D. Emília. Vejo que minha pre- 
sença começa a Incommodal-a,: é tempo de tor- 
nal-a (mais rara e menos importuna. 

— Ah ! Já cansou de esperar ? respondeu coin 
um ligeiro riso de mofa. 

— Já perdi a esperança, confesso-lhe. Já; por- 
que etafim oomprehendo o que se passa em seu 
espirito. 

— Queria que me dissesse issol Ficaria sa- 
bendo. 

— Dir-lhe-hei; porque não? A senhora é de 
uma bondade extrema e cuida que eu tenho di- 
reito á sua gratidão. Conheceu que eu a amava, 
que esse ámíor era minha felicidade e minlia vida. ^ 
Pareceu-lhe que recusar-me em troca sua a"ífei- '^ 
çáo, era o mesmo que recusai -a a um pai, a um 
irmão. Quiz amar -me, porque é boa; fez todo o 
possivel para isso, mas debalde ... O amor nasce 



[105] 



José de Alencar 

de si mesimlo, de repente, sem que o ssupeitem. 
Sc elle viesse quando o chamamos e desappare- 
eesse á ^vcntade, não era o que é, uma fatalidade. 
Illudiu-se, D. Emilia. O homem a quem ha de 
almar, a senhora não o conhece, nettn o viu talvez. 
Quando apparecer, nã,o lhe dará tempo de inter - 
'rogar -se. Seu coraçião palpitará por si mesmo, e 
a senhora sentirá que ama, sem saber como, nem 
quarido começou a amar! 

— Talvez isso seja verdade para outras ; para 
mim asseguro-lhe que não. O amor, como eu so- 
nho e espero, ha de ser a minha vida inteira: 
portanto parece -me que tenho o direito e até o 
deve'r de conhecei -o antes de entregar -me a elle 
sem reserva e para todo o sempre. 

— É outra illusão suai O amor tem a crença 
ingénua da eternidade; quem o sente acredita sin- 
ceramente que elle não se extinguirá nunca. Eu 
nãiC- tive a felicidade de lhe insdirar essa fé su- 
blime; portanto que esperança posso ter? O me- 
lhor talvez fosse retirar -me, porque á força de 
querer violentar seu coraçião, Tlmilia, talvez acate 
odiando-me ! . . . 

— Odiando-o? . . . exclamou Emilia assustada. 
Como lhe veiu semelhante pensamento? 

— Não me disse já uma vez? 

— "Cale-sel atalhou élla com inexplicável pa- 
vor. '■ 

'Emilia ficou algum tempo muda e pallida, 
absorta na estranha emoção. 

— Augusto ! . . . disse-me ella afinal, e com 
teriía imelancholia. Não tem' razão. Quem me fez 

[106] 




Uiva 



acreditar no amor? Quem me deu a f é e a espe- 
rança nelle?... Lembro-mé! Antes de conhe- 
cel-c, eu ^duvidava. 

'Essa palavra e um sorriso bastarão para se- 
renai' tainha alma. 



XIV 

AVIA. g-rande reunião em Matacavallos. 
Tinha visto Emilia de relance. Eiia sof- 
fria já a ebriedade das luzes, da musica 
e d.os perfumes, que a dominava sempre em ple- 
no salão. ]sr'esses momentos havia em toda a sua 
pessoa, na attitude e nos m.oVimentos, anhelos im- 
petuosos. Parecia provocar as emoções. Seus lá- 
bios aspiravão então com avidez o ambiente do 
baile. 

Ma.s seu pudor susceptível não a abando- 
nava nunca. EUa atravessava a multidão ag-itada, 
como a borboleta que enreda o vôo por entre as 
ramagens do rosal, sem ferir nos espinhos a pon- 
ta das azas subtis. O que a protegia na confusão, 
não era tantO! o rápido olhar como um sétimo sen- 
tido, que só ella possuia uma espécie de previsão 
dos objectos que se aproximavão. 

Comtudo, eu soffria muito vendo Emilia assim 
esquecida de mim' e engolphada nos prazeres que 
outros partilhavão. Essas horas do baile erão mau 
lento supplicio. Algumas vezes, bem como n'essa 
uoito, eu evocava debalde as recordações dos dias 



[107 1 



José de Alencar 

passados, debalde ine accusava de egoísta; o ciú- 
me afinal me vencia. 

'Poí já quando o cora-ção me desfallecia, que 
ella pela primeira vez veiu aonde eu estava. 

Notei sua grande pallidez. O seio arfava pre- 
cipitadamente. A fadiga ou a emoçião lhe havia 
humedecido a fronte. Seus olhos tinhão um brilho 
vitreo que incommodava. 

— O baile já a fatigou? . . . Muito depressa! . . . 
disse- lhe, cem o riso amargo. 

--Quasi não danseil... Mas não sei o que 
sinto I... Não me acha muito pallida? 

— Ha de ser o calor I . . . Esta sala é muito 
abafada! 

— O calor ? Se eu tenho frio . . . frio n'alma! . . . 
E a febre que vem!... murmurou com um riso 
singular. 

N'essa occasião o Dr. Chaves aproximou-se 
para offerecer-lhe o braço. 

Has de te lembrar d'elle, Paulo. É um bri- 
lhante talento de orador, que se revelou de re- 
pente na camará por alguns triumphos bem no- 
táveis. Moço ainda, elegante, com uma physio- 
nomia expressiva e o reflexo de suas glorias po- 
liticas, elle triumphava no salão, como na tri- 
buna. 

Antes de aceitar -lhe o braço, Emilia me disse 
a taeia voz, com um tom supplicante: 

— Não fique tão longe de .miml... Eu lhe 
peço! 

Segui-a por algum tempo; mas quando a vi 
suspensa á palavra seductora de seu par, emba- 

[ 108 J 



Divâ 



lando-se docemente á musica das phrases talvez 
apaixonadas que elle lhe dirigia, tive a coragem 
de arrancar -me a esse m.artyrio. Refugiei-me no 
jardim. 

"Havia ali encostados á varanda, e nos inter- 
vallos das sacadas, uns bancos de pedra coòertos 
por dóceis de uma trepadeira qualquer. ISTos dias 
de taile, D. Mathilde fazia illuminar esssi, arca- 
ria 'de verdura, que dava á casa um aspecto cam- 
pestre. 

Fumava sentado n'um d'esses bancos. De re- 
pente ouço a voz de Emilia. Eila se recostara á 
janella prcxima, e continuava com seu par uma 
conversa animada. A folhagem espessa me es- 
condia aos olhos de ambos; porém eu os via per- 
feitamente no quadro illuminado da janella. 

— Tudo isto, doutor, não é mais do que um 
d'esses bonitos discursos, de que o senhor tem 
o talento admirável . . . 

— Então não me acredita? disse o Dr. Cha- 
ves. 

— "Kão posso!... Em uma vida como a sua, 
tão cheia de glorias e ambições, o que resta para 
o amor!... As horas perdidas do baile!... Con- 
fesse ! . . . 

— Mas a senhora não sabe então, D. Emi- 
lia, que estes curtos instantes em que a vejo, 
são os únicos que vivo? O resto, o tempo que. 
sobra á minha tão rápida felicidade, trabalho com 
enthusiasmo, é verdade! Mas porque? Porque tra- 
balhar, para mim, é amar ainda, é elevar -me 
do pó, afim de poder erguer os olhos para o 



Í109J 



José de Alencar 

céo séiri offendelo! Eu não era ambicioso, não! 
Foi o amor que me deu esta sede de poder. Os 
meus mais tellos triumphos, acredite-me, senhora, 
não os sinto quando os alcanço, mas quando ve- 
£iho depol-os submisso a seus pés. A níinha glo- 
ria é essa unicamente, fazer de quanto o mundo 
respeita e acata, a humildade de meu amor ! . . . 

Emilia escutava enlevada. Ás vezes o orgulho 
vibrava sua fronte nobre com um gesto divino. 
Oh que tyrannica belleza é a d'essa mulher, que 
até mesmo quando eu a desprezo, me força a 
admirai -ai 

Quando a voz que a raptava emmudeceu, elia 
ficou suspensa um instante. Depois fitou os olhos 
no Chaves. 

— E se eu exigisse, o senhor teria a coragem' 
de sacrificar tudo a um capricho meu? 

— Ordene I 

— Não tenho esse direito; responcíeu sorrin- 
do. Se o tivesse . . . não seria assim egoísta. Qui- 
zera ao contrario partilhar com o mundo inteiro 
os seus triumphos! 

— Mas esse direito... lhe pertencei Tome-o. 
Eu lhe supplicol 

— l>íião íme sinto com forças. 

— Sempre essa cruel palavra ! 

'Como eu soffria, Paulo ! . . . Mas não'l Boffri 
depois, ainda agora soffro. N'aquelle instante, nada, 
nada absolutamente ! O que a revelação cruel pro- 
duziu então em mim, nãiO' foi nem dôr, nem in- 
dignação, toas um e^upor d'aLmaI Eu ali fiquei, 
no idiotismo das minhas emoções. 

( 110 J 



mimimmmssBBBsassaa^^SBSSsssss^BBSSÊSS^BasÊÊÊÊaÊm, 



Diva 



X> dialogo do Dr. Chaves fora interrompido 
pela aproximação do Alvares, que vinha tuscar 
Emilia para a promettida quadrilha. O deputado 
teve ide ceder o lugar. 

Depois de um curto silencio, durante o qual 
o jovem poeta esteve sot a influencia do olhar 
soterano de Emilia, elle animou-se a falar-lhe em 
voz submissa: 

— -D. Emilia... A senhora leu os meus ver- 
sos? 

— Li; disse ella. São inuitos tonitos, mas não 
sã,o verdadeiros. 

— 'Tem razão 1 Não dizem nem a som.bra do 
que sinto I Aias sou eu o culpado? O verto divino 
do meu amor, não ha na linguagem dos homens 
palavra que o exprima! 

— Não por certo! Não é possível exprimir o 
que não se comprehende. 

— Oh! D. Emilia! 

— Oh ! Os poetas I Eu os conheço ! O que el- 
les amão n'este mundo é unicamente sua própria 
imaginação, o ideal sonhado: todos têm sua Ga- 
latliéa; e nós hão somos para elles senão estatuas, 
que ios seus versos devem animar, como centelhas 
do fogo sagrado! 

— Se a senhora tivesse lido a poesia que eu 
hontem escrevi, não pensaria assim, D. Emilia! 

— Dê -me! Quero vel-al 

— Não a trouxe! 

— Procure bem ! disse Emilia sorrindo. 

O Alvares tirou cora effeito do bolso um pe- 
queno papel dobrado; mas cojm a faceirice dos 



[111] 



'J WWPiWiWWi*»").!"'-!" 



José de Alencaf 

escritores, recusou cntregal-o, quando Emília es- 
tendia a mão para recebel-o. 

O movimento vivo que ellc fez soltou -lhe d'en- 
tre os dedos o papel, que veiu cahir no jardim. 
. EUo riu e afastou-se exclamando: 

— Bem feito! 

O Alvares correu á porta da varanda, ma« 
chegou tarde. Não sei que instincto da minha 
entíio embrutecida natureza, me fez precipitar li- 
geiro isobre o papel, como fera sobre a presa. 

Fui escondcr-me no fim do jardim', e ali pas- 
sei uma hora palpando aquelle papel avelludado, 
CGiu o sentimento do suicida tacteando o punhal 
qufí o deve immolar. Nem mais me lembrava do 
que se passara com o Chaves. A primeira dôr 
envelhecera já. 

^Quando me suppuz calmo e senhor de mim, 
ivoltei á sala. 

Do primeiro olhar, vi Emilia sentada na ou- 
tra extremidade, sempre bella e resplandecente; 
m:us por cerio que nunca, pois n'osse instante 
eu a admirava com olhos de maldição. Recos- 
ta i o ao h umbral da porfci, estava um homem, que 
a devorava com a vista, esperando impaciente a 
opportunidade para falar-Ihe. Era o tenente Veiga, 
de quem já te falei. 

— Ainda outro, meu Deus I soluçou minha al- 
ma agonisante. 

Julga do meu soifrimento, Paulo, pela vileza 
a que me arrastava o desespero. Acabava de rou- 
bar um papel que me nãiO pertencia; não era 
bastante; fiz^me espião. Dei volta peTa varanda 

[112] 



hm 



^^ff^mmmm 



Diva 

de toodo a aproximar -me da, jporta sem que os 
dioLs toe presentissem'. Nião cheguei já a temJpo 
de ouvir, mas vi . . . 

Emilia desprendera uma violeta de seu raano 
e deixara^a cahir aos pés intencionalmente: o of- 
ficial curvou -se, apanhou rápido a flor, que bei- 
jou e prendeu com' orgulho ao peito da farda or- 
nada de condecorações. 

Tudo isto fora feito com tão delicado disfarce, 
que ninguém mais na sala o viu, nem suspeitou. 

Vaguei pelo salão conversando com u4n e outro, 
colnprimentando algumas senhoras de meu conhe- 
cimento, procurando assim gastar ao attrito dos 
indifferenbes as emoções dolorosas que me pun- 
gião. Depois sentei-me á meza de jogo. 

Chegou finalmente a quadrilha que eu devia 
dansar com Emilia, a sexta, se não me engano. 
Uma das finezas que ella me fazia n'esse t^npo, 
era nã.oi dansar mais em um baile, depois de 
ter dansado comigo; por isso me reservava sem- 
pre a ultima de suas quadrilhas. 

— Como o senhor está pallido, meu Deus ! 
exclamou ella tomando-me o braço. 

— Nião; ha de ser o ef feito das luzes sobre 
este papel escarlate; respondi sorrindo. E o seu 
accessò? Já passou? 

— Que accesso? perguntou sorpresa. 

— ííão disse ha pouco . . . que tinha febre 
n'alma? 

— Ah I . . . Sim I Já passou ! replicou sorrin- 
do. O senhor é tão tom me'dico de minha alma que 
bastou sua lembrança para curar -me. 

I 113 J 8 



c r&w aBstw wt3a *e 



José de Alencar 

— Então lembrou -se de mim ? 

— Que remédio, senão lemtrar-me? Procurei-o 
tantas vezes com' os olhos, e rião o vi I . . . Onde 
esteve o senhor todo este tempo? 

— Pois deveras reparou em minha ausência 
D. Emilia? Juraria, o contrario! 

— Jurava falso I Se não fosse verdade, por- 
que lh"'o diria? 

— Quem sabe? 

— Quem melhor do que o senhor 1 

A voz de Emilia n'essa conversa era doee e 
meiga. Seu olhar macio acariciava-me com de- 
licias. Em toda sua pessoa derramava-se um 
celeste effluvio de ternura, que manava de sua 
alma, e rorejava a flor nativa de sua ingénua 
■altivez. JSÍunca eu a vira assim maviosa, nem 
mesmo nas horas em que estávamos sós. 

— "E não me quer dizer onde esteve? per- 
guntou de novo com branda queixa. 

— 'Estive jogando. 

— O senhor ? . . . o senhor que aborrece o jo- 
go? Que lembrança foi esta? 

— Aborreço o jogo, é verdade! Ê de todos os 
vicios o que mais revolve os instinctos maus. 
Porém ás vezes é necessário. Os venenos também 
são remédios . . . perigosos, sim . . . Quando não cu- 
rão, matão. 

— Queria esquecer -mel disse Emilia com ter- 
na exprobação. Ingrato ! . . . Quando minha alma 
o chamava I . . . 

Esta palavra exacerbou-me o coração: 

— Para que, D. Emilia? Paria que me cha- 

í 114 I 



MMMH 



Diva 

mava a senhora? Não tenho nem poeição bri- 
lhante, nem g-loria, nem talento, para depor a 
seus pés. O meu amor?... Esse fora um fnes- 
quinho triumpho para quem alcança, os mais bri- 
ihantes. Ura amor tanal . . . Mas perdão! Não devo 
mais profanar o meu sentimento com esse nome. 
Chamarei amizade como a senhora. Não me disse 
uma noite, por outras palavras, que a minha 
affeição era uma flor muito modesta para se fazer 
d'ella ramalhetes e grinaldas de baile ? . . . Tinha 
razão!... No campo, por desfastio, em algum dia 
monótono, pôde excitar a curiosidade. Não lhe 
parece?... Assim foi melhor que eu me conser- 
vasse longe; devia mesmo não voltar. Tenho re- 
ceia de envergonhal-a com uma paixão ridicula! 

Emilia cravara em mim seu olhar intelli- 
gente e soberano, que me traspassou a alma todo 
o tempo que eu levei a proferir estas palavras. 
Havia n'esse olhar, de uma fixidade importuna, 
arriogancia e curiosidade ao mesmo tempo. EUa pa- 
recia querer recalcar -me no coração minha pa- 
lavra sarcástica, e ao mesmo tempo arrancar d'ali 
o segredo da súbita mudança operada em mim. 

Depois de uma pausa começou com a palavra 
triste e lenta: 

— "NãO' me fale assim ! Eu tenho, o senhor 
tem sabe, um espinho em minha alma; é o or- 
gulho. Quando tooão n'elle o fel se derrama, e eu 
me sinto mál... Não quero responder-lhe. Posso 
dizer-lhe alguma palavra dura e magual-o . . . De- 
pois soffreremos ambos. Nã/> é melhor a franqueza, 
do que estarmos aqui como duas crianças a fe- 

í 115 ] 



i waM p iJ. ■ ■ ni .Hin 



José de Alencar 

rir -nos com pontas de alfinetes, que podem entrar 
no coração? O senhor tem alguma cousa que o 
affligpe e que eu igiioro. Fale! 

Emilia deu á sua voz uma terna inflexão para 
pronunciar estas ultimas palavras: 

— Se eu o offendi, Augusto, accuse-me I Não 
será a primeira vez que lhe peça perdão I 

Eu sentia, aos sons maviosos d'essa voz celeste, 
meu coração hirto embrandecer-se como uma cora; 
mas de repente o toque do papel que eu tinlia 
no lolso o enregelou. 

— Não posso falar aqiii ; respondi tremulo. 
Não estamos sós. 

— Pois amanhã ; me disse "Emilia. Ás sete 
horas, junto aos bambus. 

Estimei essa demora; n'aquelle momento, tão 
próximo ainda da amarga decepção, sentia que 
não poderia ter a dignidade da minha dor. 



A 



XV 



O nascer do sol, já eu esperava Emília. 
Que longa noite! 

Soffria horrivelmente, mas como um en- 
fermio desacordado. O estupor do espirito, que me 
fulminou ouvindo a cruel revelação, continuava. 
Não podia comprehender Emilia^, o anjo do celeste 
pudor, a altiva rainha das minhas adorações, 
transformada de súbito n'uma desprezível namo- 
radeira de sala. 

[ 116 J 



Diva 

Havia momentos, em que eu achava dentro 
em mim a imagem de duas Emilias, uma para o 
meu desprezo, outra para o meu amor. E minha 
alma, ora exaltava-se em seu orgulho para cuspir 
a bava da indignação ás faces d'aquella, ora ajoe- 
lhava humilde e dolente para chorar seu infor- 
túnio aos pés desta. 

Passara uma parte da noite a reler os versos 
do Alvares; ainda os tenho de côr apezar dos 
esforços que faço para esquecel-os. Elles por ahi 
correm n'um v^olume de poesias, recentemente 
publicado por esse moço. Tem por epigraphe — 
A ella. 

Quando o sol espalhou as trevas, nlo sei 
que serenidade derramou-se em meu seio. Era tal- 
vez a saciedade do soffrimento. 

Emilia veiu meig^a e serena, como a tinha dei- 
xado na véspera. O baile, longe de fatigar, re 
pousava sempre essa incomprehensivel creatura. 
Havia no sorriso dos lábios, no setim das faces 
e na irradiação do olhar, o primor de virgin- 
dade que têm as flores recentemente desabrocha- 
das. Quem visse essas límpidas auroras de sua 
belleza, julgaria que ella acabava de nascei- moça, 
ao despontar do sol, como as rosas e as borbole- 
letas. Tal era o frescor, e o viço da sua formosura. 

Quando a percebi de longe, senti que o meu 
coração exhauria-se; a indignação que o enche- 
ra até aquelie momento fugiu d'elle. Temia que 
o primeiro olhar de Emilia dissipasse a minha có- 
lera, e que sua primeira palavra me curvasse a 
seus pés humilhado ainda por um amor indigno. 

Í117] 



,^ Joێ de Alencar 

— D. Emilia, disse-lhe eu, receio offendel-a... 
Talvez o melhor fosse calar -me./ 

— O que mais me pôde of fender de sua parte 
é o silencio, quando o senhor tem um resenti- 
■ment-o de mim. Fale, não tenha receio. Bem vê 
que eu estou tranquilla. 

— Pois então ouça-me e desculpe. Sem du- 
vida a senhora julg-ará pouco nobre meu proce- 
dimento, isorprendendo ura segredo alheio; mas 
lembre-se que eu a amava!... E a amava tanto, 
que tive a coragem de aviltar -me ao meu amor. 
Sinto este orgulho! 

Pela primeira vez, Emilia pareceu sorpresa: 

— Xão comprehendo ! Que fez o senhor ? 
Mostrei-ihe os versos e contei-lhe tudo quanto 

soubera Aa véspera, durante o baile; timido e 
balbuciante a principio, ia-me reanimando á me- 
dida que a evocação d'aquellas cruéis recordações 
maguava minha alma ulcerada; o desespero pro- 
rompeu a final. 

Emilia liie ouvira impassível. 

— Bem vê que eu sei tudo, D. Emilia! 
Ella não me respondeu. 

— Ouviria eu mal? N,ão comprehenderia as 
suas palavras? 

— Ora! O senhor é tão perspicaz! 

— Assim não me illudi? Esses homens a 
amão, e a senhora lhes corresponde? 

— O senhor o diz ! . 

— IVIeu Deus! Mas a senhora não sabe que 
nome tem isso ? . . . 

Emilia ergiieu-se de um Ímpeto. Seus olhos 

[118] 



» 



•^mm 



Diva 



tinhiãio raios lívidos, e sua fronte um luzimento de 
mármore. 

— O nome ? . . . Exclamou ella. O nome que 
isso tem ? Eu lhe digo ! É a indif ferença . . . Não í 
É o desprezo, que me inspirão todas estas pai- 
xões ridiculas que tenho encontrado em meu ca- 
minho 1 Ah! Pensa que amo a algum d'elles? 
Tanto como ao senhor 1... O amor, eu bem o 
procuro, mas não o acho. Ninguém ainda m'o 
soube inspirar. Meu coração está virgem! Tenho 
eu a culpa?... Oh! Que ente injusto e egoista 
que é o homem ! Quando nos ama, dá-nos ape- 
nas lOs sobejos de suas paixões e as ruinas de 
sua alma; e entretanto julga -se com direito a 
exigir de nós um coração não só puro, mas tam- 
bém ignorante! Devemos amal-os sem saber ainda 
o que é o amor; a elles compete ensmàr-nos . . . 
educar a mulher . . . como dizem em seu orgulho 1 
E ai da miséria escrava que mais tarde conheceu 
que não amava ! . . . Seu senhor é inexorável e 
não perdoai... Basta-lhe um aceno, e a multi- 
dão apedreja I 

Eu assistia, deslumbrado, ás erupções que pro- 
duzia ,0 orgulho offendido n'aquella alma intel- 
ligente. Emilia parou um instante para respirar; 
e a palavra sarcástica frisou outra vez seu lábio 
mimoso : 

— Os liomens . . . Felizmente aprendi cedo a 
conhecel-os, e os desprezo a todos; os desprezo, 
sim, cóm indignaçião do amor immenso que eu 
sinto em mim,, e que nem um d'elles merece I . . . 
Cuida lO senhor que é a minha vaidade que me 



[119 1 



José de Alencar 

arrasta pelas salas, como tantas mulheres, pelo 
prazer de se verem admiradas e ouvirem elogios 
a sua belleza ? . . . Oh ! não, meu Deus 1 . . . Vós 
sateis quanta humilhação tenho trag-ado, eu que 
tenho o orgmlho de merecer um nobre amor, ven- 
do-me objecto de paixões mentidas e interessei- 
ras I . . . 

— iRefere-se a mim, D. Emilia?... 

— Ao senhor ? . . . se eu tivesse um tal pensa- 
mento a seu respeito, julga que esperaria tanto 
tempo para lh'o declarar? Os outros têm' o direito 
de mentir -me porque me são indif f crentes .. . O 
senhor, a quem eu dei minha amizade e confi- 
ança, pão! . . . Seria uma indignidade! ... Os ou- 
tr,oe podem me fazer a vida amarga e triste sem 
que eu me queixe. Mas o senhor . . . 

— D. Emilia!... balbuciei oommovido. 

— Não me queixo, não; nem preciso que me 
consolem! exclamou arrebatada. Para que? O que 
eu soffro agora. Deus m'o levará em conta para 
o mfcu amor, quando eu amar um dia, na terra 
ou no céo. 

Emilia afastou-se: e eu a segui involunta- 
riamente. Esperei debalde que voltasse o rosto; 
por fim a chamei; ella parou. 

— Ao menos, D. Emilia, não consinta mais 
que esses homens lhe falem de sua paixão. Pro- 
mette-me? 

— Não, senhor! 

— Bem I 

— Se me quer amar como eu sou, com os 
meus caprichos ... 

[ 120 ] 



"imt 



Diva 

— Não posso I 

— Tem razão! É melhor assim 1 respondeu sor 
rindí). 

— Então adeus, D. Emilial 

Ella derramou sobre mim n'um só olhar todo 
o seu desdém, dizendo com voz pausada: 

— E me tinha amor I . . . Pois eu, se o amanse, 
me desprezasse o senhor embora, eu o acompa- 
nharia até aos pés da minha rival para suppli- 
car-lhe as migalhas de seu amorl Eu, siml Mas 
felizmente para nós ambos, não o amo, e creio 
agiora que não o amarei nunca! 

Desatando o passo augusto, deixou-me sepul- 
tado n'aqnelle desengano cruel. 

Não me retirei completamente da casa de 
Duarte: porém as minhas visitas a pouco e pouco 
forão sendo mais raras. Era outra vez em casa 
de D. Mathilde que eu me encontrava agora mais 
frequentemente com Emilia. 

Ella, lou de propósito, ou porque não tivesse 
mais reservas a guardar comigo, atirou-se com 
soffreguidjão aos cortejos de sala. Todas as noites 
a cercava a grande roda dos seus apaixonados, 
aos quaes ella de repente despedia com um gesto 
ou uma palavra, para attrahir novos, que erão 
logo substituídos. 

Eu soffria, assistindo, a essa profanação de 
meu bello ideal, um supplicio cruel. Era meu amor 
que a pouco e pouco se despegava do coraçião, 
ai-rancando-lhe as fibras e escalpellando-o. Quando 
esse amor fugir de todo, o que me restará de 
coração? Uma ulcera íipeaâsl... 

[121] 



José de Alencar 

Julinha me comprehendêra e me consolava. 
A toa menina, vendo-me infeliz, começou ing-e- 
nuamente a amar -me, mas sem consciência e sem 
egoismo, unicamente por uma força invencivel de 
sua extrema sensibilidade. Cheguei a illudir-me; 
pensei que também amava essa menina, mas o 
que eu amei em Julinha, foi só o que vinha 
de Emilia, o que elía conversava comig-o a res- 
peito de sua prima. 

— Não se afflija! Mila gosta do senhor, eu 
sei! dizia-me Julinha. 

— EUa confessou-lhe alguma vez? 

— Não; ella nunca me fez confidencias; mas 
eu a conheço muito 1 

— Gosta de mim, comq d'aquelles que a cer- 
cão n'este momento. Olhe ! . . . 

— Não acredite I Zomba de todos elles. 
Emilia viu a minha assiduidade junto á pri 

ma. Mas percebeu ella o que se passava em mim, 
apezar dos meus esforços para simular indiffe- 
rença ? 

Não sei. 

Uma noite aproximo use para dizer-me com 
um sorriso ameno: 

— Os seus novos amores não tolerão nem mes- 
mo as antigas amizades? 

Confesso-te a 'minha verg-onha, Paulo. Nunca o 
império d'essa mulher sobre m.im foi tão tyran- 
nico como n'esse tempo cm que me violentava 
para arrancar rainha alma á sua funesta infla- 
encia. 

Emilia tinha seduoções tão poderosas, que era 

[122] 



Diva 



impossível resistir. Eu chegava; vinha com uma 
resolução firme de mostrar -lhe a minha com- 
pleta indifferença, c fazel-a acreditar que real- 
mente amava Julinha. 

Pois quando estava mais entreg-ue a esse jo- 
go do coraç-ão, e á força, de falar de amor, eu 
me atordoava a ponto de suppôr que o sentia pela 
filha de D. Mathilde; pois justamente n'essa occa- 
sião, Emilia, não sei como, arrancav^a-me de perto 
da prima e arrastava-me a seus pés. 

Bastava-lhe para isso um nada, um sorriso, 
uma. doce inflexão de seu collo, um gesto gia- 
cioso da mão afilada brincando com um annel 
dos cabellos ou com uma fita do vestido. 

Ohl Essa mão gentil, quando ella a despia 
da luva, tinha uma alma; movia-se em torno de 
sua belleza, como um anjo que descera do céo 
para acaricial-a. Aos toques suaves dos dedos má- 
gicos parecia que sua lindeza debuxava-se mais 
brilhante. 

E eu ficava sem palavra e sem movimento, 
todo olhar a contemplal-a de longe. 

Afinal, quando ella me via assim alheio de 
miJni: e captivo de sua graça, chamava-me com uma 
imperceptível vibração da fronte. 

De lordinaxio, vendo -me chegar obediente, se 
demudava por tal forma, que estupidava-me ; era 
entã» fria e glacial, como uma estatua de gelo. Já 
Q.ão. me via, nem me ouvia: eu voltava tragando 
em silencio a (minha vergonha. 

Outras vezes, não: recebia-m'e risonha e amá- 
vel.' 



[123] 



José de Alencar 

— Julinha está zangada 1 Vá dansar com elial 
dizia-me então. 

Emfim, Paulo, essa mulher escarnecia de mim, 
a fazer pena. Tratava-me como ao cão da Terra 
Nova que havia em sua chácara, e com o qual 
a vira tantas vezes brincar. Enxotava-me com 
a ponta do pé, parta ter o prazer de me fazer 
voltar, lambendo o chão por onde ella passava. 

E eu vivia, espremendo em minha alma o 
fel d'essas humilhações a ver se irritava ahi a 
dignidade abatida. ; 



XVI 



TINHA cabido n'uma tal prostração de animo, 
que Emilia se commiserou de mim. 
Uma noite veiu sentar -se a meu lado, e 
seu olhar envolveu-me d'aquella ternura compas- 
siva e protectora, que dava á sua virgem bel- 
leza |Um perfume de ideal maternidade. 

— Como eu o tenho feito soffrer, não é ver- 
dade? me disse ella compungida. Também eu sof- 
fro. Que natureza é a tainha! Parece que tenho 
prazer em me contrariair e affligir a mim mesma. 
Mas não me queira mal, Augusto. Eu lhe pro- 
metto ser outra d'aqui em diante; o que perturbou 
nossa amizade não succederá nunqa mais. 

— Deveras 1 . . . PriOmette repellir ps seus ado- 
radioresl 



I124J 



mm 



Diva 

— Eu os afastarei lanto de mim, que nem 
a sombra d'elles se possa interpor entre nós. 

— Obrig'ado, D. PJmilial Obrigado pela se- 
nhora, unicamente; nãoi por mim. 

— Então isso lhe é indifferente. 

— Vem tardei O nial está feito. 

Emilia teve um dos seus gestos de rainha. 

— Ahl se eu houvesse profanado a minha 
alma n'esses arremedos de amor com que as moças 
se divertem antes de casar; se eu estivesse cm 
meu quarto ou quinto namoro, quando o senhor 
me conheceu, talvez toe julgasse digna de sua 
af feição. Mas eu, que procuro preservai' minha 
alma d'essa profanação, mostrando-lhe ao vivo o 
egoismo, a cupidez e a baixeza que escondem 
as paixões improvisadas n'mna noite de baile e 
calculadas friamente no dia seguinte. Eu, que me 
guard I [para aquelle a quem amar, virgem de 
amor e immaculada . . . Sim ! immaculada até dos 
olhares que res valão sem penetrar -me 1 . . . Eu, não 
sou digna de sua estima, Augusto! Para mim, 
é tardei 

— Perdão, Milal... Eu sou um insensato! 
Mas meu amor é uma tão pura adoração, eu a 
coUoquei tão alto na minha veneração, que as 
palavras apaixonadas d'esses homens me parecião 
denegril-a como o fumo de um torpe incenso . . . 
Loucura 1... Eu devia saber que ellas não che- 
ga vão ao seu coração, como não chegavão a Deus 
as blasphemias do impiol... 

Emilia respondeu-me com um sorriso deli- 
cioso, pousando a mão sobre a minha: 

I 125 J 



José de Alencar 

— Não me eleve tanto, para que outra vez 
não tne deixe cahir de tão alto ! . . . Esses ho- 
mens erão apenas livros para mim; ás vezes ti- 
nha lido na véspera sua cópia impressa. Terá 
ciúmes, Augusto, dos romaiices que eu leio? Sof- 
freu vendo -me no theatro assistir á representação 
de uma comedia? 

— Já lhe suppliquei meu perdão. Eu ettava 
louco ! 

Ella foi n'essa noite e nos dias seg-uintes de 
uma bondade inexhaurivel para mim. Voltámos 
aos nossos antigos passeios e ás conversas inti- 
mas. Eu estava outra vez terno e amante a seus 
pés, mas orgulhoso e contente do meu triunpho. 

Emilia cumprira sua palavra de um modo 
que eu não ousaria esperar. Appareceu ainda al- 
gumas noites em casa de D. Mathilde, como para 
mostrar -me o modo significativo por que despedia 
as seus adoradores; realmente soube arredal-os 
a tal distancia qvtid, nem um d'elles se animou 
a voltar. As horas que ali passou esteve comple- 
tamente isolada, o d perto de taim e a meu braço. 

Por mim deixou de saJiir, e fez que ceesas- 
sem as reuniões em sua própria casa, até nos 
domingos. Desde então parecia que ella se pou- 
pava ao mundo; e guardava toda, para entregar -se 
sem reserva ás expan.sões de meu amor. 

Assim voarão dois mezes de felicidade. 

Durante todo esse tempo, Emilia foi de uma 
submissão e docilidade que me punha sempre 
attonito, e muitas vezes affligia. 

Tomava para comigo uma attitude de vic- 

[126] 



mm 



Diva 

tima resignada e contricta; parecia <que minha 
vontade a tyrannisava, quando era eu misero quem 
supportava a tyrannia de seus caprichos. Mas 
ella sentia não sei que intimo prazer em humi-^ 
Ihar-se aos meus x>lhos; e tinha o talento de, capti- 
vando-me o coraçião e o pensamento, insinuar que 
obedecia ao niinimo aceno meu. 

Succederão muitos accidentes, como o que te 
vou referir. 

Encommendava ella á sua modista algum ele- 
gante vestido, ou comprava qualquer novidade pa- 
risiense recentemente chegada. A primeira vez 
que ncis viamos, Togo me fazia alguma pergunta 
n'este género: 

— Qual é a côr mais de seu gosto? 
Ou entãQ: 

— Acha bonita a nova moda de vestidos? 

Respondia-lhe com volubilidade, sem dar gran- 
de importância á questão. Acontecia ás vezes que 
o vestido era da côr ou da moda não preferida 
por mimi; ella o immolava sem piedade; em fo- 
lha, como estava, fazia d'elle presente a algmna 
moça, ou sepultava-o nos recantos de uma com- 
meda. Entretanto, o vestido era lindo; e fosse feio, 
que eu o achara divino, trajado por ella. 

Se eu incommodava-me com estes novos ca- 
prichos de hmnildade, tão avessos dos anterio- 
res inspirados no orgulho, e como elles Ião im- 
perativos, ella insistia impaciente, e não tolerava 
da minha parte a minima observação. Muitas '/e- 
zes por essa causa nos separámos tristes e ma- 
guadois. 

I 127 ] 



«imm i nip i mn 



José de Alencar 

Em nossos mútuos devaneios, quando me (m 
bia a vez de falar, vasando as expansões de meu 
coração cheio, ajoelhava todo meu ser ante o idolo 
de sua graça. 

EUa, antes meiga e dócil á minha palavra, 
já a não escutava; e atstrahia-se ás ferventes 
adoraçiões para se refugiar em não sei que pe- 
nosa e amarga scisma. O que encantara outra mu- 
lher, parecia enfastial-a; derramava-se por seu 
rosto uma nuvem de tédio e desgosto. 

Quasi sempre esquiva va-se logo., e deixando-me 
só alguns instantes, rompia a conversa. 



XVII 

FOI hontem. 
Deixara Emilia na véspera descontente por 
causa de um dos nossos conflictos de sub- 
missão reciproca. 

Achei-a porém já esquecida d'essa pequena 
contrariedade, e satisfeita. Comtudo, tinha certa 
gravidade no olhar e na fronte que annunciava 
o peso de muitos pensamentos ali concentrados. 
Falou com sua graça costumada; falou do 
passado, recordando de leve as phases por que 
passara nosso amor. Era sua historia intima, o 
romance de sua alma, que ella esboçava a traços 
finos e delicados. 

Depois de comparar sua existencia anterior 



I128J 



Divà 



tao aditada com o actual isolamento e tranquilli- 
dade, fix,ou-me nos olhos, emquanto me dirigia 
com' a voz lenta estas palavras: 

— Está satsifeita? Não foi cegamente , obe- 
decido? 

— Oh I Mila ! Obedecido, não 1 Não me atrevia 
a pedir tanto... É uma graça que me concedeu... 
e eui a irecebi de joelhos I . . . 

— Ahl fez ella cora uma expressão indefi- 
nível de tédio. 

Geraldo entrava n'esse momento. Depois de 
apertar -me a mão: 

— Diz-me uma cousa, Amaral? Por que ra- 
zão prohibiste a Mila de sahir de casa? 

— Ora, Geraldo 1 respondi eu enfadado. Nunca 
ha^ de ter juizo. 

— Foi ella ouera me disse!... 

— D. Emilia?... 

— E tu acreditaste ! disse Mila ao irmão com 
um risoi irónico. 

Lsto passava-se hontem. 

Hoje á tarde, chegando á sua casa, achei o 
carro á porta e ella na sala pronta para sahir; 
só esperava por D, Leocadia. 

— Vai sahir? perguntei-lhe triste. 

— Não vê? respondeu correndo os olhos pelo 
seu trajo. » 

— Volta cedo? 

— Não! Vamos ao theatro. 

— Ah ! . . . Tinha-me . . . prdmettido não, mas 
habituado já a vel-a longe do mundo, bonita, e 
risonha só para mim ! . . . 



[129] 



José de Alencar 

— É verdade; mas os hatitos sempre con- 
tiiiuadce afinal trazem a monotonia. 

Tive um terror pânico. Ouvindo as palavras 
desdenhosas de Emilia e vendo-a calçar as íu- 
vas, não sei que allucinação foi a minha; afigiirou- 
se-me que essa moça ia outra vez ser-me arre- 
tatada pela vertigem do mundo; que eu a ia per- 
der, e ag^ora ])ara sempre. 

— Mila, nõ-Q sei que tristeza profunda me 
causa esta sua ida ao theatro ... É uma exqui- 
sitico minha I... Que cousa mais simples do que 
ir ao theatro?... Mas... Não comprehendo este 
temor... Eu lhe supplicol... Antes de partir 
dê-me coragem 1 Diga-me essa palavra que eu es- 
pero ha tanto tempo 1 

EUa esquivou a mão, que eu procurava, ves- 
tindo-se da dignidade fria que a envolvia ás ve- 
zes como túnica de gelo.^ 

— Tem muita pressa de ouvir essa palavra!... 
Ha de querer tamfcem um juramento solemne . . . 
que firme seus direitos . . . Poderá então impôr- 
me sua vontade, e que remédio terei eu senão 
sujeitar -me ! . . . Mas ainda é cedo. Espere, meu 
senhor I 

Sutita e profunda revolução se operou em 
mim; subjugado por ella eu apenas pude pro- 
nunciar uma phrãse; mas que profusão de senti- 
mentos, que riqueza de paixão, a alma não verte 
n'uma só palavra, mesmo vulgar I . . . 

— Basta, senhora! 

Ná,Q sei se minha voz echoou n'alma de Emi- 

í 130 1 



Diva 

lia, como resoava na minha; era o grito de uma 
paixão na ag-onia. 

Emilia caminhou para mim, atsorta em do- 
lorosa emoção; senti sua mão pousar no meu hom- 
bro, os seus ,olhos nos meus, o seu haJito nas 
minhas faces, a sua palavra cahindo a uma e 
uma no meu cérebro. Aias eu estava tão pro- 
fundamente merg-ulhado em mim mesmo que não 
CGinprehendia n'aqueile instante nem' o que olhava, 
nem o que ouvia. 

— Augusto I Seu amor é um nobre e santo 
amor, como eu pedia a Deus que me desse a for- 
tuna de inspirar!... ÍR,csponder-ilie com uma d'es- 
sas affeiçiões banaes a que o coração reserva ape- 
nas as horas vagas que doixão o calculo e a 
vaidade, seria uma profanação indigna!,.. Espe- 
re, e lhe peço que espere para não causar por 
um engano a sua e minha desgraça; para não 
ser obrigada a dizer -lhe um dia: «Eu me illudi! 
Esta vida que lhe dei, não a podia dar, não 
me pertencia, mas áquelle de quem a roubei e 
agora a reclama! Trahi a um, men<íi a outro; 
falhei meu destino; só me r|esta morrer!» Eis 
porque eu lhe digo que espere. 

Calou-se um instante. 

— Talvez me illuda i . . . Ha horas em que 
duvido ainda como outrora. Quero espei-ar um 
anno ainda... Acha muito? Para decidir de duas 
existências?... Se d'aqui a um anno eu conhe- 
cer que não amo, a esta mesixya hora, no lugar 
onde o senhor estiver, eu irei dizer -lhe: «Deus 
negoiu-me a ventura de amar; mas o senhor me 

[ 131 J 



José de Alencar 

ama; se a Iminha vida é necessária á sua felici- 
dade, tome-a; eu Ih 'a dou com prazer; eu lhe 
pertenço, sem amor, mas cheia áe> dedicação!» 
Ouviu, Augusto?.,. Quer um juramento? 

— É inútil I Eu já a não amo I 

Fui sincero nesse momento. Aquelle sarcas- 
mo com que Emilia respondera á minha supplica, 
'O eg-oismo frio que ella revelara, tinhão traspas- 
sado minha alma, e escoado o amor até a ultima 
gota. Eu acabava ido Ver, a nú, o aleijão re- 
pulsivo d'aquelle coração de moça. 

— Acredite; repeti com desprezo. Acabou, e 
já nem me lembro que amei! Está agora tão 
longie de mim esse passado ! . . . 

Ella mostrou uma ligieira perturbação; mas 
immed latamente sua altivez a serenou. Então, 
Paulo, passou -se, o que só pôde comprehender 
quem' viu essa mulher sublime. Fez-se n'ella como 
um' jubileu de gra^çia e luz. Aquella radiante formo- 
sura expandiu-se vei-tendo de si nova e ímais esplen- 
dida formosura. Imagina uma apotheose de beileza. 

Emilia assim transfig"urada teve um sublime 
gesto de duvida. 

— É impiOtssivel!. . . 

D. Leocadia entrava. Despedi-me e parti. 

São duas horas da noite. Tive a coragem de 
não apparecer no theatro. Lembrando^me que Emi- 
lia lá estava e desenhando em meu espirito a 
imagem de sua fulgurante belleza, achei-me calmoi; 
perscrutei meu coração e encontrei-o forte. 

Realmente já não amo essa mulher, ou se 
a. amo ainda, semelhante af feição está sepultada de- 

1132] 



Diva 

baixo de outras paixões que acabarão por aniqui- 
lal-a completamente. 

O que eu sinto ag^ora é só um desejo frio de 
vingar-me e paga,r a Emília desprez-o por desprezo. 

Eis a historia do meu primeiro e talvez único 
amor, Paulo; precisava derramar no teu seio as 
lagrimas que ainda n'este momento afogião meu 
coração. 



XVIII 

PENSAVA ter concluído esta carta, maâ não, 
Paulo! Tornei a vel-a! 
É passado um mez. 
Durante elle evitei encontrar -me com Emilia. 
Minha alma precisava d'esse momento de repouso 
etttrc o amor extincto e o ódio nascente. 

Foi ha três dias que a vi pela primeira vez 
depois do nosso rompimento. 

Jantava eu em casa de D. Mathilde. Estava 
encostado ao piano ouvindo Julinha tocar; a 
mãi chamou-a. Ií'essa occasião Emilia aproximou- 
se de mito e idisse-me com o seu habitual sarcasmo: 

— Já não !me ama... Porque foge de miim? 
Tem medo? 

Estamos sós na sala. Travei-lhe do braço e 
apertei-o com ímpeto brutal. 

— A senhora acredita que a consciência de 
uma grande infâmia pôde matar um homem , de 
brio?... Pois se fosse possível que eu viesse a 



(133J 



José de Alencar 

amal-a, sintc que teria tão grande asco de mim' e 
uma vergioiíha tal que me fulminaria comoi o raiol 

Soltei-lhe o braÇiO. Ella deixou-se cahir sobre 
uma cadeira, e sustendo com a outra mão o pulso 
miagliado, esteve a olhair a nódoa roxa que deixara 
a pressão de meus dedos. Adejava em seus lábios 
um sorriso de martyr. 

Eu me afastara indignado de minha própria 
brutalidade. Não te posso explicar o que foi isso. 
O sarcasmo de Emília irritou -me de uma ma- 
neira que ainda agora não comprehendo. Seria 
porque eu ainda a amo, mau grado mcuj,. e sua pa- 
lavra me denunciara minha própria vileza? 

]Sro jantar incommodava-me muito aquella nó- 
doa roxa. Emilia esta'/a sentada quasi defronte 
de mim, e a cada momento seu braço volteava 
em torno d'ella, talvez de propósito, para mostrar 
a -contusão. 

— Milal disse-lhe D. Mathilde de longe. O que 
tens no braço esquerdo? 

— É verdade! acudiu Julinha. Está roxo. Que 
foi isso? 

— É o signal da minha cadeia I respondeu 
Emilia sorrindo. 

— Que cadeia, Mila? perguntou D. Leocadia. 

— Pois não tenho uma pulseira com a forma 
de um grilhão ? . . . 

— Tens, sim. 

— Hoje brincando, ella cerrou-me tanto, que 
pensei me quebrava o pulso I... 

— Não deves mais usar d'ella. 

— Piorque? Ella é innocente; a culpa foi mi- 

[134 1 



Diva 

nha. NâtO foi? disse espreg^uiçando sobre mim' o 
languidiO olhar. 

Voltei o rosto sem responder-lhe. Eu come- 
çaria a sentir uma espécie de pavor d'essa menina. 
Havia n'ella a inspiraçãa iieroica e a tentação 
satânica que ,o génio do bem ou do mal derrama 
s^obre a humanidade pela transfusão da mulher. 
Em outra scena mais larg^a eu a julgaria capaz 
de vibrar o punhal de Judith ou de Macbeth. 

Desde esse dia quando ella se aproxima ú.t) 
mim', ou mesmo de longe me envolve com seu olhar 
maléfico, a 'minha coragem vacilla. A. raiva que 
sinto de mim mesmo reflúe sobre ella. Cubro-me 
então com^ c motejo offensivo e grosseiro. Que que- 
res, Paulo? É a coragem do desespero. 

Mas ella, a incomprehensivel creatura, longe 
de of fender -se, parece deleitar -se com as expio-, 
eões do meu despreso e resentirnento. 

Ainda hontem. 

Conversávamos indifferentemente, quando veiu 
a falar-se de uma moça, que amava seu primo a 
quem estava promettida, e de repente se casara 
com o filho de um rico capitalista. Já sabes ; a noi- 
va era acremente censurada; eu tomei sua defesa 
contra Julinha. 

— Pois eu d^gsculpo essa moça, I>. Julinha; 
seu amor tinha talvez a coragem' da morte, mas 
não tinha a coragem da pobreza. Ha naturezas 
assim'; os grandes sacrificios as exaltãio, os peque- 
nos as humilhão. Eu não a desculpai^ia se ella fosse 
rica, e em vez de sentir o orgulho de inspirar um' 
amor capaz de resistir a essa seducção do dinheiro, 

[135] 



José de Alencar 

se ccntentasse em compralno . . . E nem só compral- 
o; mas acenar, como os avarentos, cam( o seu di- 
nheiro, para ter o prazer incomprehensivel de 
aviltar a turba de adoradores, entre os qiiaes ella 
afinal escolherá uni tnarido ! . . . Um marido rega- 
teado I . . . 

Emilia soltou uma risada argentina; do alto 
de sua belíeza mais , que nunca altiva e radiosa ati- 
rou -me um olhar augusto. Ergueu -se, e não sei 
que elação deu ella com esse movimento ao seu 
talhe, que parecia subida a ura throno. 

Oonservava-me de pé no mesmo lugar, com as 
costas apoiadas a uma arvore do jardim. Ella atra- 
vessou o lespar-o que nos dividia e veiu a mim' fei- 
ta em risos, comi o passo tão doce e lento que res- 
valava sobre a areia, onde a orla de seu vestido 
mal roçava. Vendo-a aproximar-se tanto, retrahi- 
me contra a arvore para não tocai -a. 

Pai'0u emfim: estendendo o lábio altivo, dis- 
se -me oom a voz indefinivel, uma voz onde havia 
tudo, ódio e amor, desprezo e ternura, meiguice e 
sarcasm.o; uma voz que parecia canto, grito e 
soluço ao mesmo tempo: 

— Que é isso, senão amor?... Ama-me ain- 
da e (mais do que nunca! 

Voltou; e agora a fimbria de seu vestido 
roçagando rojava pela areia, e ella olhava-a sor- 
rindo por cima do hombro, e de propósito inclina- 
va-se mais para ennegrecel-a no pó, como se fora 
a minha alma abjecta que ella arrastasse assim pelo 
clião. 

Firmei' me ao tronco da arvore com todas as 

(136) 



Diva 



minhas forças, porque o meu primeiro assomo 
fora terrivel. Eu não .sei o que seria de rnim, se 
eu desse Ti'ajquella circumstancia um primeiro pas- 
so para ess;a moça. Fiquei ali immovel, ven- 
diO-a de longe a voltear entre os arbuislos. 

De repente senti uma calma assustadora dcr- 
ram.ar-se em' minha alma.; era al.g-uma oousa como 
uma- ialg'ide2; moral, reaocião da grande cólera. 

Tix-e nec^essidade de insultar essa moça. 



XIX 

VOLTu de sua casa. 
Que noite, Paulo! Que noite de ira, foi esta 
para mim! 

Cheg'uei ao Rio Comprido quasi ao escurecer. 
Estavião todos no jardim. Depois de alguns ins- 
tantes, Emília erg-ueu-se e afastou-se lent-aimente 
do ígrupo. A alguma distancia, parou para colher 
uma flor, voltou-se, e olhou-me. 

Aproximei me; ella continuou seu passeio so- 
litário pela chácara. Chegando á cerca onde as 
murtas formavão um bosque espesso em torno de 
assentos de pedra, volt-ou-se de novo para mim 
e sorriu. Como eu hesitasse se devia seguil-a, 
fez -me um aceiíjo gracioso. 

Sentámo-nos: erão seis horas da tarde; uma 
somhra luminosa ainda e de uma doçura immen- 
sa derramava-se por aquelles lug-ares. As vozes 
de Julinha e das outras moças que paiSseavam do 



[137 1 



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José de Alencar 

lado opposto, chegavão-nos atravéz das folhas e da 
somtra com uma suavidade extrema. 

Mas essa doç:ura da tarde, a belleza de Emí- 
lia, os perfumes das flores, tudo que havia de 
suave ali, irritava-me; eu tinha a alma ulcerada, 
e não havia bálsamos, senão cautérios, para cica- 
trizal-a. 

Falei-lhe com volubilidade, travada do fel que 
borbotava, do coração. 

— D. Emilia, nós estamos representando o pa- 
pel de duas crianças, atormentando-nos um' ao 
outro, e talvez servindo de thema á malignidade 
alheia. Hontem', a senhora cuida que não ouvirão 
suas palavras? 

— Que as ouvissem ! Foi o senhor hiesmo quem 
se denunciou I . . . 

— Já lhe disse e repito, D. Emilia, eu nião amo 
a senhora. . . Nunca a amei I . . . 

— Mentiu-me então? 

— Menti, confesso. . . 

— Creio antes que mente agora. A mentira é 
irmã do insulto. 

— Desculpemo-nos mutuamente, D. Emilia; 
ambos errámors e para que estas scenas não se re- 
pitão, eu quero ser franco. A senhora me fez uma 
vez, ha tempo, sua confissão: quer ouvir a mi- 
nha? 

— Fale 1 replicou Emilia com um tom de ame- 
aça. 

— Eu não sou inteiramente pobre, mas também 
nãíO sou rico, e tenho acima de tudo a ambição. 
do dinheiro. , 

[138] 



Diva 

— Aul fez lella cerrando as pálpebras e en- 
ooistando a cabeiçia no recosto do banco para oavir- 
me impassível. 

Seu olhar, coando entre os cílios e partindo -se 
em 'mil raios, scintillava sobre meu rOiSto, corno 
o trem'ulo rutilo de uma estrella. 

— O que lhe vcu dizer é talvez humilhante 
para mim!; mas eu me sacrifico! 

— Muito agradecida! Isso me penhora: res- 
pondeu-me, inclinando-se com um serio impertur- 
bável. 

— Á excepção do comniercio, a senhora sabe 
que não íia no Bra,sil carreira alguma pela qual se 
possa chegar depressa. . . e honestamente á ri- 
queza. A tainha, mal dá para viver com decência. 
Piortanto sendo eu honesto. . . porque tenho medo 
da policia, e não gosto que me incominodem-. . . 
sendo eu honesto, repito, só havia um recurso á 
minha ambição. . . Adivinha qual ? 

— Suspeita; mas diga sempre. 

— O do casamento. 

— É um recurso licito e fácil. 

— Não tanto como lhe parece. 

— Ora ! para O' senhor ? . . . 

— Para mim, sim senhora; porque embora am- 
bicioso, eu não estou disposto a sacrificar á rique- 
za minha felicidade; seria um absurdo, pois se 
eu quero ser rico é para ser feliz. 

— E como pretende conciliar isto ! Deve ser 
curioso. 

— É 9,gora que eu preciso de toda a sua in- 
dulgência; vendo-a quando voltei da Europa, sen- 

[139J 



José de Alencar 

ti-nw? attrahido para a senhora por uma inclinaçião 
que eu considerei amor ; e essa inclinaçião. . . Não 
devo occultar cousa alguma para minha maior 
vergonha. . . essa inclinação augmenfeu involun- 
tariamente quando soube que os neg-ocios do Sr. 
Duarte tinhão prosperado de tal forma que elle 
era scniãjo^ o maior, um dos maiores e mais sólidos 
capitalistas da praça do Rio de Janeiro. . . Não sei 
se deva continuar I . . . 

— Poix[ue não, doutor? Eu estou ouvindo-o 
ocin um prazer immenso! 

— Mas eu me acanho . . . 

— É modéstia própria dos homens de talen- 
~lo, que sabem viver. Mas nós nos conhecemos 1 . . . 

— Bem.; eu continuo. Disse-lhe que a amava 
já muito, 'mas isso não era nada em comparação 
do que senti depois. . . Um dia, alguém, creio que 
um corretor, assegurou-me iqus o Sr. Duarte era na- 
da menos que milionário. . . duas vezes milionário... 

— Ahl Eu ignorava,! 

— Pois saiba que é. Viuvo, só com dois fi- 
lhos . . . pensei eu . . . Então D. Emilia terá um 
milhão de dote! Um milhão! Desde esse momento 
meu amor não teve mais limites; tornou-se uma 
paixão digna de Eomeu, de Othelo, dos mais cele- 
brados heróes de dramas e romances. Como sua 
iormosura então revelou-se resplandecente a meus 
olhos ! . . . 

Eu Gomprehendi n'essa occasião os poetas que 
eu não comprehendêra nuncai, e as suas compara- 
ções mineraes... Vi que seus dentes mimosos erão 
realmente pérolas de Ceylão, seus lábios rubis de 

1140 1 



H 



Diva 



Opliij-, c seus olhos diamantes da melhor ag-ua! Sua 
voz argentina tinha aos meus ouvidos essa melodia 
ineffavel, que nem Eossini nem Verdi puderão ain- 
da imitar, a melodia do ouro. . . do ouro, a senho- 
ra bem sabe, a lyra de Orpheu d'e?te século!... 

Oh! Que paixão, D. Emilia! Era um delirio. . . 
uma loucura. . . Foi entã,o que eu não pude mais 
resistir e confessei-lhe que a amava! 

Emilia ergueu-se rápida: 

— Ah 1 comprehondo agora ! . . . 

Como não fiquei ao ver aqueila mulher,ex- 
ultando de jubilo e orgullio ali, em face de mira, 
que pensava tel-a afinal humilhado com meu frio 
sarcasm.o. 

— O que é que a senliora compre hende, D. 
Emilia? 

— Que eu vivo em sua alma! E como; o senhor 
nãjO pôde arrancar-me d'ella, procura rebaixar-me 
a seus próprios olhos e liumilhar-me para ter a 
forçia, que não tem, de me desprezar! O senhor 
ama -me, e ha de amar-me emquanto eu quizer. . . 
e ha de esperar aqui, a meu lado, até que chegue 
a hora em que me perca para sempre... Porque eu, 
é que posso jurar-lhe: n,ão o amo, não o amei, 
não o amarei nunca. . . 

A paixão^, recalcada por algum tempo, ergueu- 
se indomável em minha ,alma, e precipitou como 
uma fera sedenta para essa mulher. Toda a lia que 
o peccado original depositou no fundo do coraçãí) 
humano, revolveu-se e extravasou. 

Eu avancei para Emilia; e meu passo hirto, 
e meu olhar abrasado, devião incutir-Ihe terror. 



1141] 



José de Alencar 

— Pois betn; exclamei eu com a voz surda e 
tremula. A senhora quer! É verdade! Eu a amo! 
Mas aquella adoraçião de outrora, aquelle culto sa- 
grado cheio de respeito e admiração . . . tudo isso 
merreu! O que resta ag^ora ii'este coração que a 
senhora esmagou por um bárbaro divertimento, 
o que resta, é o amor brutal, faminto, repassado 
de ódio. . . é o desespero de se ver escarnecido, e a 
raiva de querêl-a e obrigal-a a pertencer-me para 
sempre e contra sua própria vontade!... 

— Eu o desprezo!... respondeu-me Emilia. 
Era quasi noite. A voz de Julinha soou no 

jardim, chamando a prima, eu ia dar um ultimo 
passo para Emilia; hesitei. 

— Fuja, senhora! 

EUa não se moveu; ficou muda cmquanto os 
échos da voz de Julinha continuando a chamal-a 
resoavão ao longe. Quando o silencio restabele- 
ceu se, e parecia que a prima se tinha afastado, 
ella veiu coilocar-se em face de mim, e erigindo 
o talhe e cruzando os braços affrontou-me com 
o olhar. 

— O senhor é um infame ! disse com arro- 
gância. 

Fiz um esforço supremo; inclinei-me para bei- 
jar-lhe a fronte. Seu hálito abrasado passou em 
meu rosto como um sopi-o de tormenta. 

Ella atirara rapidamente para traz a altiva 
cabeça, arqueando o talhe ; e ,sua mão fina e nervo- 
sa fl.ageUou-me a face sem piedade. 

Quando dei acordo de mim, Emilia estava a 
meus pés. Sem sentir eu lhe travara dcfâ pukos e 

1142] 



Diva 

a prostrara de joelhos diante de mim, como se a 
quizera es'mag'ar. A.pezar da minlia raiva e da vio- 
olencia com quie a molestava, essa org-ulhasa me- 
nina não exhalava um queixume; eoltei-lhe os 
braçiOiS mag^uados e ella caíiiu com a fronte sobre 
a areia. 

— Criança I . . . E louca ! . . . 'murmurei af astan- 
do,-me. 

Emilia arrastou-se de joelhos pelo chão. Aper- 
tou me convulsa as m'ãos, erguendo para mim seu 
divino semblante que o pranto orvalhava. 

— Perdão I .. . soluçou a voz maviosa. Perdão, 
Augusto 1 Eu te amo ! . . . 

Seus lábios humidos das lagrimas pousarão 
rápidos na minha face, onde a sua mão tinha toca- 
do. E ella estava diante de mimi, e sorria submissa 
e amante. 

Fechei os olhos. Corri espavorido, fugindo 
Gomo um phantasma a essa visão sinistra. 



XX 



IM, A ugusto, eu te amo i . . . Já não tenho 

outra consciência de minha vida. Sei que 

existo, porque te amo. 

«N'aquelle momento, de joelhos, a teus pés, 

essa gr,ande luz encheu meu coração. Acabava 

de ultrajar -te cruelmente; detestava- te com todas 

as liQVÇ3iS d© minha aLm)a; e de repente todo aquel- 



"S 



[143] 



José de Aleiícaí 

le ocliiO violento e profundo fez -se amor! Mas que 
amorl 

« Desde então me sinto como inundada por 
este iminenso jubilo de amar. Minha alma é gran- 
de o forte; g-uardei-a até agora virgem e pura; 
nem uma emoção fatigou-a ainda. Entretanto re- 
ceio que ella não baste para tanta paixão. É preci- 
so que eu derrame em torno de mim a felicidade 
que me esmaga. 

«Porque me fugiste, Augusto?... Segui-te in- 
petindo mil vezes que te amava; confessei-o a 
cada flor que me cercava, a cada estrella que luzia 
no céo. Alinha alma vinha a meus lábios para 
voar a ti n'esta abençoada palavra, — eu te amo! 
Tudo em mim, meus olhos cheios de la.grimas,. 
minhas m-ãos súplices, meus cabellos soltos, se 
tivessem uma voz falarião para dizer-te. — filia 
íe ama! 

<í Beijei na areia os signaes de teus passa?, 
beijei os meus braçios que tu havias apertado., 
beijei a mão ({ue te ultrajara n'um momento de 
loucura, e os meus próprios latios que roçarão 
tua face ii'um beijo de perdão. 

«Que suprema delicia, meu Deus. foi para 
mim a dôr que me causavão meus pulsos ma- 
guados pelas tuas mãos! Como abeniçoei este sof- 
frimentol . . . Era alguma cousa de ti, um ímpeto de 
tua alma, a tua cólera e indignação, que tinhão 
ficado em tninha pessoa e entravão em mim para 
tomar posse do que te pertencia. Pedi a Deus que 
tornasse indelével esse vestigio de tua ira, que me 
sanctificára como uma cousa tual 

I 144 J 



Diva 

«Vierã,o encontrar-me submergida assim na 
minha felicidade. Interrogarão -me; porém eu só 
ouvia os cânticos de minha alma cheia das melodias 
do meu amor. Não lhes fallei, com receio de profa- 
nar a minha voz, que eu respeito depois que ella 
te confessou que eu te amo. Não deixei que me 
tocassem para não te offenderem no que é teu. 

«Quero guardar -me toda só para ti. Vem, 
Augusto: eu te espero. A minha vida terminou; 
oomeçio agora a viver em ti. 

« Tua Emilia. » 



São onze horas. 

Recebo agora esta carta, aqui na cidade. 

Quando fugi hontem de Emilia, tinha tão gran- 
de terror de mim mesmo, que não me animei a 
ficar no Rio C!omprido. 



Acatando de ler o que ella me escrevera, pe- 
di a Deus que me desse coragem para resistir: 

— Senhor 1 Vós sabeis que eu não devo amar 
essa mulher 1 Seria uma infâmia ! . . . 

Achei Emilia sentada em uma cadeira, absor- 
ta em seu enlevo. Vendo-me, toda essa bella crea- 
tura assumiu-se n*um só e ineffavel sorriso para 
cahir a meus pés, diffundido sua alma n'es- 
tas palavras impetuosas: 

— Eu te amo, Augusto 1 

Depois continuou repetindo um'a e muitas ve- 



í 145 1 ,0 



José de Alencar 

zes a mesma phrase, como se estudasse uma modu- 
lação de voz que pudesse exprimir quanto ha- 
via de sublime n'aquelle grito d'alma. 

— Sim'I Eu te amo!... Eu te amol . . . 

Erão as notas da celeste harmonia que seu co- 
ração vibrava, como o rouxinol canta na primave- 
ra e as harpas eólias resoão ao sopro de Deus. 

Quando ella desafogou sua alma d'esta exu- 
berância da paixão, falei-lhe: 

— Mas reflicta, Emilia. A que nos levará 
esse amor? 

— Não sei I . . . respondeu-me com indefinível 
candura. O que sei é que te amo 1 . . . Tu não és 
só o arbitro supremo de minha alma, és o motor 
de minha vida, meu pensamento e minha vontade, 
és tu quem deves pensar e querer por mim'. . . 
Eu?... Eu te pertenço; sou uma cousa tua. Podes 
conserval-a ou destruil-a; podes fazer d'ella tua 
mulher ou tua escrava I . . . É o teu direito, e o meu 
destino. Só o que tu não podes fazer em mim, é 
que eu não te ame ! . . . 



Emfim, Paulo, eu lainda a amava I 
Ella é minha mulher. 




5-3Ô 

Q 
B/T 



1146 1 



ACABOU DE SE IMPRIMIR 

NA TYPOGRAPHIA DO ANNUARIO DO BRASIL, 

(ALMANAK LAEMMERT) 

R. D. MANOEL, 62 — RIOyD^ JANEIRO 

AOS 25 DE MARÇO (d^/ 1921 




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